quinta-feira, 4 de setembro de 2008

As lágrima que nunca chorei - Parte III


Três meses depois dos últimos eventos, Jane já estava recuperada e, claro, sua beleza crescia a cada dia que não passava por um momento de dor.


Após tormentos vividos por amores incertos, que na verdade nunca saíram de sua mente, ela tentou revigorar sua vida e dar atenção a si mesma. Estava cursando uma exceçente faculdade, e seu futuro, dada sua inteligência com certeza era muito promissor.


E ela dizia tudo isso a si, a cada dia, irritando aos outros que viam uma garota forte, mas que estava fragilizada por dentro, criando barreiras para não se destruir.


Jane havia criado muralhas, mas o tesouro dentro dela era tão forte e grandioso, que as mulharas cediam de dentro para fora. E ela naum poderia fazer nada.


Certo dia conversando na faculdade, Jane e Lia marcaram de ir ao cinema. Há muito tempo não comparecia às longas sessões, nas quais prestava total atenção a cada ser pequeno e diminuto da escuridão. Os rostos, as expressões pela emoção do filme, a magia de adentrar uma história completamente, fechando seu mundo que não era feliz.


No entanto, naquele dia, ela reparou que não era a única observadora. Um rapaz da fileira ao lado, mais à frente, a olhava de tempos e tempos. Aparentava ser forte, tinha olhos claros e o cabelo um pouco cacheado.


A sensibilidade de Jane sempre foi a sua maior inimiga, e claro ela naum conseguiu deixar de corar, e retribuir aos olhares bondosos e interessados do rapaz.


Ao final do filme, ela saiu com a amiga, e foram comer algo.


Sentadas na praça de alimentação do shopping, notaram o mesmo homem que a estava olhando.


Estranhamente ele era um pouco mais bonito no escuro! Mas, Jane gostou de ser observada.


Um homem alto, vestindo um terno de risca de giz, como se tivesse saído do trabalho para passar algumas horas relaxando. Os olhos, ela confirmou serem verdes. Uma boca bonita, e os cabelos cacheados.


Lia foi ao banheiro e deixou Jane sozinha, para ver se o rapaz se aproximava dela. No ato da saída de seua amiga, Jane o viu se aproximar e parar à sua frente.


_ Posso me sentar?


_ A... A... Claro. - e sorriu envergonhada.


_ Não pude deixar de notar que passamos o filme inteiro nos olhando.


_ É mesmo? Mal percebi.


_ Qual foi o final do filme?


_ Hahaha - Jane gargalhou - Certo! Não sei! - e sorriu de novo.


_ Qual o seu nome?


_ Jane. E o seu?


_ Fernando.




Não cabe a mim repetir os momentos pelos quais os dois passaram. Isso é algo a ser dito em outro momento, quando não mais essas coisas importarem. Quando não mais "Fernando" for algo que habita o músculo cardíaco; e que as vezes sopra um fluxo de sangue, memorável claro, mas não novo.


Fernando era Vice Presidente de uma empresa de telecomunicações. Também traído pela vida, conseguiu milhares de ganhos profissionais, mas seu coração, ainda não havia encontrado o conforto que ele queria.


Por alguns meses, Jane proporcionou isso a ele. Ao menos ela acredita que tenha feito isso.


Acontece que por sua indisponibilidade de concorrer com a vida de um homem mais velho, e com uma indepedência invejável, ele se afastou dela.


Mas de forma tão sútil, que ela jamais levou facadas em seu peito. Ela não teve a angústia de ser pega de surpresa, e talvez ele tenha entendido que seria o melhor a fazer.


Fernando não mais a viu. E Jane chorou.




MAS ESSAS FORAM LÁGRIMAS DERRAMADAS.




Certa vez, seus pais brigavam sobre Jane. Tentando encontrar um defeito numa garota que não os tinha; disseram que ela deveria se dedicar mais e mais.


Jane sucumbiu e pediu a Fernando que a tirasse de lá. Ele atendeu.


Ficaram juntos e cresceram. Eram jovens e muito inteligentes. Jane se formou; e conseguiu um excelente emprego; tinha o trabalho e o amor juntos.


Mas, ela havia se esquecido dos amores que sempre conquistou incondicionalmente. Afastou-se dos amigos, de sua família, e das lembranças. Havia se tornado uma executiva estressada, mecânica e sem pureza. Suas maçãs do rosto não mais reluziam primor; e ela tinha que maquiá-las para que pudessem brilhar.


Os casacos pretos e azul-marinhos eram a chama de sua vida. O poder e a vontade insubstituível de vencer e vencer até não saber onde chegar, haviam se tornado sua obsessão.




Um dia ela recebeu a notícia de que seu pai havia morrido de enfarte e que dias depois, sua mãe havia se matado por não ter como pagar aos credores. Jane nunca mais os havia ajudado, pois sempre guardou a mágoa de não deixarem-na viver.


Quando entrou no cemitério, viu parentes antigos. Pessoas simples que a olhavam como se fosse a Presidente; pessoas que amava nos tempos em que ainda tinha um coração.


Ao ver sua mãe embrulhada em rosas teve seu sentimento arrancado num choro de magnânima agonia, que caiu ao chão completamente arrasada.


A cena cruel, mostrou nitidamente o arrependimento daquela mulher que havia lutado tanto e não chegado a lugar algum. Jane havia esquecido de seus valores; largado todos eles ainda jovem, e partido sem dizer adeus.


Fernando não a acompanhou naquele dia.


Mas ela o viu quando chegou em casa. Deitado à cama com outra. Uma mulher jovem, com ares de menina, supostamente também fora enganada.


Enganada a uma vida coberta de poder que não lhe dava prazer algum. Enganada a uma vida sem misericórdia alguma.


Na reunião do dia seguinte, ela iria revelar sua emoção forte.

Uma reunião de 18 acionistas, dentre eles Fernando; ela, a única mulher, levantou-se:

_ Antes de começar a reunião do balanço anual gostaria de parabenizar o grupo que se mostra cada dia mais e mais forte. Os lucros são impressionantes, vão além das expectativas. Tudo isso mostra que fazemos uma grande equipe, isso eu tenho que confessar.

Decorre que todos esses anos vim me dedicando imensamente; só não sabia que chegaria tão longe.

_ Você merece, Jane! - disse Fernando.

_ Todos merecemos. E, com certeza, devo muito a meu amado Fernando.

Entretanto, tenho a declarar que não mais vou trabalhar aqui.

_ O que?

_ Como?

_ O que houve!?

Todos estavam inquietos. Não sabiam o motivo de tamanha decisão.

_ Não darei explicações maiores sobre minha saída. Mas estou cansada. Estou realmente cansada de não ter a minha vida mais; de trabalhar intensamente sem levar em conta os meus sentimentos. Eu não sei mais quem sou!

_ O que será de nós?

_ Vocês tem a Fernando. Um homem leal; ao menos à sua empresa, porque à sua mulher com certeza não o é!

_ Do que está falando Jane?!

_ Da sua transa de ontem a noite? Qual o nome dela? Ou ela usa um a cada programa?

O silêncio foi absoluto.

_ Apenas digo adeus a todo o grupo. Esses anos foram demais para mim.

Jane saiu da sala.

O alvoroço começou, e Fernando saiu correndo atrás dela.

_ Por que está fazendo isso?!

_ Por que?! Por que??? Você não precisa de mim! Nunca precisou! Dediquei minha vida toda a você! E quando passo por uma crise o encontro me traindo!

_ Aquilo não foi nada.

_ Foi! Foi muito!

As pessoas se aproximavam para ver o que acontecia.

_ Ótimo! Destrua o restante que lhe resta! Sra. Perfeição! Não passa de uma mulher angustiada.

_ Não sou isso. Você que é um maldito monstro que me fez abandonar toda a minha família. Toda a minha vida!

_ E agora está jogando tudo isso na minha cara?

_ Estou! Porque eu era jovem demais e você deveria agir como um homem da sua idade, e fazer o que seria certo.

_ E eu fiz. Te tirei daquele inferno!

_ Aquele inferno era melhor que você!

_ Pois então volte para aquela merda de vida! Sua louca! ... Vagabunda! - e deu um tapa no rosto de Jane.

Jane parou deslocada.

_ Meus pais morreram. Só há um jeito de voltar.

Jane começou a caminhar pelos corredores de volta à sala de reuniões.

_ O que? - perguntou Fernando.

Jane começou a correr e abriu subtamente a porta da sala. Os demais acionistas continuavam discutindo, quando sentiram o tremor da porta bater nas paredes. Os sapatos de Jane subiram à mesa.

_ Jaaaaaaaane! - gritou Fernando correndo atrás dela.

O final da mesa terminava numa grande janela de vidro. Estavam no vigésimo quarto andar.

O corpo de Jane bateu de frente com o vidro que se estilhaçou. Em doze segundos seu corpo encontrou o solo. Ela ainda teve tempo de gritar.

MAS ESSAS SÃO AS LÁGRIMAS QUE NUNCA CHOREI


_ Você não pode morar comigo. - disse Fernando.

O amor dos dois foi se extinguindo naturalmente. Coisas não aconteceram. Mas finalmente havia tido alguma relação. Seu amor não foi tão cultivado, mas sabia o que era conviver com um homem.

Jane só precisava aprender a como amar alguém.


Continua...