
O vento frio recaiu sobre as paredes escuras do grande Castelo de Niedlen, e o Rei Griemmer já havia se recolhido em seus aposentos. Depois do frio intenso do outono veio a neve para destruir as plantações já colhidas e fazer os camponeses refugiarem-se em sua miséria para dentro das humildes casas.
O branco fluído cobriu árvores, troncos secos, casas, carroças e tudo o mais que ao céu estava exposto. Seriam tempos difíceis até a chegada dos próximos raios de Sol, contudo, entre o longo frio e a vinda de uma nova esperança na primavera, o trabalho árduo de camponeses e guardas continuava sem parar, ante a ostentação e a frieza da alma do monarca.
William se aproximou das dependências do castelo para entregar cereais e carne paras ajudantes da cozinha dos nobres. Meninas um pouco cheinhas e de faces rosadas pela saúde que corria em suas veias. Já o pobre camponês, apesar de forte como um touro, dotado de ombros largos, alto, e com profundos olhos negros, mantinha o rosto fino e as roupas sujas pelo trabalho constante.
De repente uma voz:
_ Nisa! - chamava a voz cintilante que parecia prover de lábios sorridentes.
_ Yervien! O que está fazendo na cozinha de novo?
_ Vim ver o que você estava fazendo. - disse a doce voz.
_ Seu pai não gosta que você ande por aqui. Quantas vezes tenho que lhe pedir que não desça?! - a cozinheira gritava severamente e manteve-se na frente de William para que ele não visse aquele rosto.
_ O que há de tão mal? A filha do rei não pode passear pelo castelo? - e deu um rodopio fazendo seu vestido de cetim azul e lilás resplandecer em meio a seus cabelos castanhos manchados de dourado.
As mãos brancas e delicadas deslizaram pelas paredes corroídas pela fumaça e pelo sal. As pedras torneadas poderiam rachar-lhe os dedos de tão ásperas que eram; contudo, serviram de apoio para o rosto de William desvendar o anjo além das montanhas de pedra.
Yervien deparou-se com os olhos profundos e negros do camponês e não pode lutar contra aquele feitiço. Suas maçãs coraram e em poucos segundos era como se minutos houvessem passado. Ela pode ver cada centímetro daquela face sofrida, mas que guardava uma beleza inigualável, a cor púrpura em seus lábios mostravam o frio que estava passando. E o corpo, claro, era alto e forte, como jamais um nobre foi.
A princesa estava em choque, e seus olhos cederam até encontrarem os da cozinheira.
_ Yervien! É melhor você ir. - disse em máxima reprovação ao patinar como os olhos do rosto do rapaz ao dela.
A princesa nada disse, apenas colheu uma maçã em uma das torres de frutas dispostas na grande mesa, e desapareceu além dos corredores.
_ Você não devia pensar besteiras, meu jovem. - disse a cozinheira a William, que ainda não havia parado de olhar para o vazio em que a princesa havia se refugiado.
_ Não seja tola, não seria dotado de tamanha burrice.
E foi-se embora.
O inverno seria mais longo que o esperado, e a princesa não se contentou com as advertências de seu pai ou dos criados, ela precisava vê-lo. De alguma maneira ela precisava, ao menos, observá-lo ao longe, e não perderia oportunidades; as criaria.
_ Papai. - disse Yervien curvando-se diante do Rei Griemmer.
_ Diga Yervien. - a monarquia deste, apesar de um pouco cruel com os camponeses, escondia-se na face de um homem aparentemente bondoso, que não suprimia os caprichos de sua única filha. Isto talvez pela morte de sua esposa durante o parto.
_ Gostaria de caminhar pelas florestas, não muito adentro, aos arredores apenas... - mas o Rei enfureceu-se.
_ Como?! Arriscar-se no frio temeroso deste inverno em meio a bestas sedentas por carne? De modo algum! - urrou contra a filha.
_ Eu preciso caminhar pela floresta, ver algo novo, estou entediada neste lugar.
_ Não creio que a floresta seja o melhor lugar, minha querida. - baixou o tom reportando-se dos gritos que havia desferido.
_ Então, talvez, os campos de cultivo.
_ Estão todos cobertos de neve.
_ Por favor. - e cerrou os olhos como posta a chorar, arfou o peito como se o suspiro último de sua vida fosse saltar naquele instante, e apertou as mãos uma na outra rogando pela misericórdia daquele homem.
Griemmer ficou quieto por alguns segundos e fraquejou gritar com ela novamente, mas vetou sua fúria.
_ Terá que ir acompanhada e coberta. - engoliu o amargo de sua boca – Não quero que nenhum daqueles seres imundos veja seu rosto.
_ Obrigada. - ela sorriu maravilhada e o reverenciou novamente.
Dois guardas acompanharam Yervien aos campos de trigo. Um reles capricho que ela quis fosse atendido. Seu corpo fora completamente coberto por um pano negro de seda, e o vestido também negro deixava perceptível tão somente sua pele alva e seus olhos de mel brilhantes sobre as linhas de tecido.
A brisa fria era suficiente para cortar as maçãs do rosto, mas as suas estavam protegidas. Poucos camponeses andavam pelo frio, geralmente realizando a limpeza dos currais ou cuidando dos animais; as grandes plantações jaziam em meio à neve, e tudo o que precisavam para sobreviver durante todo o inverno já estava estocado no castelo.
E naquele instante os olhos de mel focalizaram as pérolas negras em meio ao trabalho árduo e o frio. William estava cuidando dos animais maiores dentro de um dos celeiros da grande propriedade.
As mãos acariciavam o cavalo firmemente, escovando o couro e deixando-o lustroso. A relva seca e alguma ração estavam jogadas aos montes em tanques de madeira para que eles se alimentassem; parecia ter um grande afeto por aqueles animais, parecia ter pena de ser tratado como um deles, equiparando-se a criaturas tão puras.
Os corpos pararam. Ele não podia a ver, mas conseguia sentir o doce perfume de flores que nunca alcançaram aquelas redondezas, e sentia a imagem naquele olhar, o vislumbre rotativo de anjos, pouco faltava para equipará-la a tais, bastaria ouvir sua voz.
Yervien chocou seus olhos no corpo daquele homem, nos braços grandes e fortes, no queixo forte e em seu peito rijo. Qualquer um sentir-se-ia seguro em torno de seu abraço, até a mais frágil das mulheres, e ele jamais a machucaria, pois misturava-se em força e delicadeza, em paixão e amor.
E ele não teve chão a manter-se, quando ela arrancou o véu negro de seda que encobria sua face. O rosto despertou uma aura, e ele balançou em seus pensamentos, quase tropeçando em meio ao feno.
Mas ela não poderia ficar ali por muito tempo, e caminhou novamente com os guardas, admirando a neve sobre as plantações extintas. Nisso:
_ O que plantam aqui? – ela dirigiu-se a William.
_ Ah... trigo, minha senhora.
_ Em todos os campos que posso ver? – perguntou desafiando-o.
_ Não. Além temos outros cereais, e ao fundo os campos de centeio.
_ Onde plantam o centeio? Simplesmente adoro pães de centeio.
O guarda tossiu querendo evitar uma conversa mais alongada entre a princesa e o servo.
_ Próximo àquela pequena casa, minha senhora. – respondeu William.
_ O que é aquela casa? Um galpão de ferragens? – perguntou entre dentes sorrindo.
_ Não. É a minha... minha casa, minha senhora. – e William olhou com vergonha para a princesa.
Yervien sentiu-se mal por tê-lo rebaixado à sua frente, e o vento frio provocou-lhe um arrepio tão forte, que seu braço esticou por instinto, fazendo com que os guardas a levassem de volta para o castelo.
William abaixou o rosto, admirou sua casa e inferiorizou-se perante o castelo de pedras.
Continua...