terça-feira, 27 de maio de 2008

A Ira de Morgan - Parte II



_ São seus filhos... Seus filhos, Catherine! - disse a pobre mãe chorando muito.


Catherina paralisou-se e relembrou imagens antigas; do tempo em que descia sua rua, e fora estuprada de maneira cruel por um demônio das sombras.


_ Mas como isso pôde acontecer? - perguntou Catherine indignada.


_ Você foi estuprada, filha. O homem que fez isso com você, a engravidou!


Catherine já não tinha os olhos amenos e pacatos de quando havia chegado; olhou novamente para as crianças e virou-se de costas apenas dizendo:


_ Não foi um homem.


A mãe ficou à sala ao lado dos netos, enquanto sua filha subia as escadas em direção a seu antigo quarto, do qual não saiu o resto do dia.




Decorre que certo tempo se passou, e Kate não havia se acostumado com os dois novos moradores da casa. Não lhes tinha acompanhado a existência, e, por isso, não criou afeto algum dos seres que saíram de seu ventre; ainda mais seres advindos de um monstro.


Cinco anos se passaram e as crianças foram crescendo. Kate retomou seu emprego de enfermeira no hospital e conseguia levar uma vida saudável, fato que não era constatado ao chegar em casa.


_ Boa noite, mamãe! - dizia Alicia com um sorriso de lado a lado do rosto.


_ Boa noite. - e Kate subia a seu quarto para dormir.


_ Mamãe não gosta da gente! - disse Morgan emburrado do outro lado da sala-de-estar.


_ Gosta sim!! Ela não gosta do nosso pai.


Morgan era um jovenziho dos cabelos pretos e os olhos muito negros também, a pele branca e as buxexas sadias o transformavam num lindo garoto; e muito sabido. Alicia, da mesma forma, tinha cabelos negros, mas bem compridos; seus olhos, no entanto, eram azuis, e não um azul comum, eram de uma intensidade forte como o céu do final da tarde. Além de belos, os gêmeos eram muito inteligentes, e Alicia despertou a curiosidade de Norma, sua avó.


_ Do que está falando Morgan?


_ De meu pai! Mamãe não gosta dele. Porque ele é mau.


_ Quem te disse isso?


_ Eu apenas sei! - disse com cara de anjo.


_ Besteira! Mamãe ama o papai, ele está no Egito estudando as múmias!


_ Exatamente, Alicia. Morgan, seu pai está no Egito, já te contei isso; e é um bom homem. - Norma não tinha a menor confiança no que estava falando.


Eis que Morgan levantou do canto da sala, foi até a avó e segurou-lhe o rosto com as duas mãos, dizendo:


_ Não tente nos enganar. - e subiu para o quarto.


Alicia ficou quieta e sentou-se no sofá para assistir televisão.


Norma sentiu um arrepio gelado subindo pelas costas, como se sentisse algo dentro do neto. Morgan sempre se mostrou um menino excepcional.




Morgan ia para o colégio todos os dias; estava sempre atento aos deveres; nunca recebeu uma reclamação sequer dos professores. Adorava estudar e ler qualquer tipo de história; e, aos poucos, já que era sócio desde os oito anos da biblioteca perto de sua casa, passou a níveis mais elevados de saber. Conseguia ler dramas, romances, livros de física quântica, filosofia, livros religiosos, terror, biografias, e assim por diante. Além disso, não deixava de ir à igreja de São Miguel Arcanjo todos os dias; sempre que saia da escola passava por lá; e aos domingos comparecia alucinantemente à missa. Eis que Morgan foi crescendo.


Alicia, ao contrário, começou a ir muito bem no colégio, mas aos poucos foi denegrindo pela inveja que tinha do irmão; não conseguia nunca ser melhor ou mais inteligente que Morgan, e isso a deixava em fúria. Aos poucos foi se excluindo dos laços da família, e adentrou num grupo mais "intelectual" da escola; ela e mais quatro meninas viriam a completar este pentagrama. E Alicia também foi crescendo.




Com quinze anos Morgan já sabia o que queria de sua vida; seu sonho era se tornar um arcebispo do Papa; ajudando e fazendo seu trabalho perante Deus a todo instante. Alicia havia se tornado uma roqueira, amante de sons pesados e com uma mente um tanto dolorida.


_ Bom dia, mamãe! - disse Morgan.


_ Adeus. - disse Catherine ao sair de casa.


_ Ela não dá a mínima pra gente. Já cansei de te dizer isso, Morgana!


_ Você é cruel, Alicia! Ela é nossa mãe, e sabemos porque ela não gosta muito de nós.


_ Porque é uma viciada!


_ Por que está dizendo isso?


_ Eu vi as milhares de seringas no quarto dela. E muitos tubos. Vovó tentou esconder de mim, mas eu descobri; são drogas!


_ Já tomaram o café? - perguntou Norma.


_ Já vovó! - responderam juntos.


_ Ótimo, estão atrasados. Vão... vão.


_ Tchau vovó. - disseram.


_ Adeus crianças. - Norma guardava muito carinho pelos netos, ainda mais quando ficou sozinha, após a morte de seu marido (que não gostava de falar sobre). E ter Kate por perto, era o mesmo que não ter ninguém


A casa fazia mal a Kate; e naquele dia, coisas iriam mudar.


Catherine subiu a rua do hospital para trabalhar naquele dia comum; eis que um bando de pássaros a atravessou de frente; tendo a pequena vertigem de visualizar um homem de capa negra sorrindo para ela; após os pássaros saírem, não havia mais ninguém por lá.


Ela suspirou e seguiu em frente, até que chegou ao hospital; foi subindo de elevador até seu andar; eis que as luzes começaram a piscar.


_ Por favor! De novo não! Não! - gritava.


As luzes se apagaram e quando a porta do elevador se abriu, Catherine estava jogada ao chão. Intacta.


Pouco tempo depois foi levada para casa.




Morgan se afastava de Alicia sempre que estavam próximos do colégio; ela não gostava de vê-lo perto, então ordenava que ele fizesse isso. Naquele dia, as aulas foram iguais. A professor de Biologia fez uma pergunta.


_ Qual a enzima que temos na boca?


_ Ptialina! - respondia Morgan sozinho na sala.


_ No estômago?


_ Pepsina e Ácido clorídrico!


E assim por diante...


Ao final, a sala inteira estava com raiva daquele que respondia a todas as questões; e a professora Margareth lhe entregou sua prova do trimestre; um 10 como sempre.


_ Parabéns, Morgan! O único 10.


_ O único dez! O único dez! Morgan imbecil! - zombou o menino gordo do canto esquerdo.


_ Santo Morgan! O papa! Hahaha - zombou o sardento do fundo.


E a sala inteira assim o tratava, mas ele não se importava, pois suas notas eram as maiores e isso lhe satisfazia.


No intervalo, Alicia e suas amigas planejavam algo.


_ Temos que fazer a magia do sapo; assim poderemos namorar os meninos do último ano!


_ Mas Alicia, a magia do sapo é muito forte, o livro de São Cipriano pede que somente um bruxo o faça.


_ Não acredito no que ele tenha dito, Carla. Você quer ou não quer Richard - e suspirou - Tompson!


_ Ok! Faremos.


Alicia, seguindo outra vertente, estava se tornando uma wicca, o que não sabia, é que isso reverteria demais em seu organismo.




Ao fim das aulas, Morgan voltava sozinho; pois Alicia sempre ficava até mais tarde com as amigas na casa de uma ou de outra. Passou pela igreja, e rezou por alguns instantes.


_ Que minha mãe goste mais de mim, meu Deus.


Foi quando uma gota caiu do teto e o acertou bem no olho direito, o deixando com muita dor, por causa da ardência. Limpou e foi-se.




Novamente alguém descia a Rua Dielden. Era Morgan, um tanto sozinho e pálido. Ao chegar em casa suspirou o desânimo de não ter amigos. Mas sua atenção se voltou para outra coisa ao ouvir:


_ Aaaaaaaaaaaah - uma voz grossa de homem gritou grotescamente do alto das escadas.


Num ato desesperado ele começou a subir freneticamente. Os lustres balançavam sem parar; as escadas tremiam, e aquela besta não parava de gritar. Foi quando abriu o quarto de sua mãe e se deparou com a cena mais aterrorizante que já havia visto.


Norma havia amarrado Catherine à cama pelos braços e pernas; e sua mãe estava desfigurada, completamente roxa e cheia de cortes no rosto. O monstro derramou-se à cama e gritou:


_ Catherine!!!!


Norma aplicou-lhe uma injeção com as seringas que Alicia disse ter visto.


Nisso, Catherine levantou o rosto e olhou fixamente para Morgan; sorriu com os dentes podres e gosmentos.


_ Mooooooorgaaaaaaaaaaaaaaan!


Catherina se libertou das cordas, deu um soco em Norma que caiu ao chão inconsciente e saiu em disparada atrás de Morgan.


O garoto correu até o quarto; mas foi arremessado direto para dentro, sendo jogado contra a parede, a porta se fechou, e as madeiras do piso começaram a saltar. O garoto não parava de gritar; até que foi jogado inúmeras vezes contra a parede. Por fim, arcou uma ponte com o corpo, seus olhos ficaram grandes e brancos, e uma veia estourou para fora de sua testa implorando por ajuda. Caiu ao chão; levantou e foi jogado contra o espelho do quarto, de onde viu seu rosto desfigurado, repleto em sangue, e a mesma face de sua mãe. Um monstro risonho e demoníaco, que apenas disse.


_ Cheguei Morgan. - e o garoto gritou até não poder mais.


Morgan desmaiou.




Continua...




quinta-feira, 15 de maio de 2008

A Ira de Morgan - Parte I


Catherine era uma jovem de vinte e cinco anos que morava com seus pais na Rua Dielden, e levava uma vida pacata e sem grandes acontecimentos. Trabalhava um pouco longe no Hospital Bürman onde era enfermeira, e temia sempre que seu pai não podia buscá-la pois estava doente. Isso porque o caminho era perigoso demais para uma moça sozinha estar desacompanhada a certas horas da noite.


E foi num dia em que a pressão de seu pai estava muito alta, que ela teve que ir embora sozinha. Saiu por volta das dez da noite do hospital e pegou o ônibus que a levaria próximo de sua casa. ao chegar já se aproximava das onze e meia, e ainda teria que descer três ruas, passando por caminhos escuros e tenebrosos.


Nisso, ouviu uma lata cair logo atrás dela; virou-se com muito medo e viu que se tratava apenas de um gato que batera numa lata de lixo.


Catherine estava amedrontada e seus joelhos tremiam; pressentia sombras ao seu redor. As paredes das casas pareciam escurecer, e ela não sabia se estava vendo coisas, ou se sua visão estava degenerando pelo medo.


Decorre que as luzes da rua começaram a apagar de trás pra frente; e numa reação impensável ela começou a correr com medo de ser-lhe retirada a claridade. A cada passo, a cada suspiro sentia seu coração palpitar no entermeio de suas veias. Mas ela não conseguiu, e a escuridão tomou a rua inteira com um chiado agudo.


Ela parou suspirando; o ar de seus pulmões se tornava nuvem em frente a seu nariz gelado naquela noite fria. Em meio às sombras ela olhou para cima, e o céu negro havia se juntado com as paredes das casas geminadas. Os tijolos já não eram mais vermelhos.


Sentia o vento arcar sua roupa e levantar sua saia; eis que olhou para trás e viu um vulto passar nitidamente de um lado da rua à outro.


Tentou gritar, mas de sua boca aberta saiu apenas ar. O susto surdo e mudo fez seus olhos se arregalarem tamanhamente, que uma veia saltou repleta de sangue. Catherine não sentia suas pernas, mas começou a correr euforicamente pelas ruas tentando achar sua casa o mais rápido possível.


Passado um instante conseguira chegar à sua porta. Mas a casa também estava sem luz e negra. Tentou pegar o molho de chaves dentro de sua bolsa, mas foi inútil, esqueceu que tinha ido sem as chavez naquele dia; começou a bater na porta.


_ Mamãe! Abra, por favor! - gritava surrando a porta.


De repente, ao olhar para o outro lado da rua, sentiu uma lágrima rolar em suas maçãs tamanho o terror que sentiu naquele momento. O vulto, que parecia um homem vestido com uma capa preta começou a dar passos em direção a Catherine. Sentiu-se horrorizada e começou a bater compulsivamente na porta; gritava sem parar, mas seus gritos não reproduziam som algum.


Foi quando ela viu alguém se aproximar da porta do lado de dentro da casa, tratava-se de sua mãe.


_ Mãe! - gritou num som rouco e mudo.


A mãe de Catherine abriu a porta. Num ato de desespero, ela tentou abraçar a mãe; mas era como se fosse um fantasma, e acabou caindo ao chão. A mãe de Catherine não a estava enxergando; apenas olhou de um lado a outro na rua e disse:


_ Como está frio. - abraçou-se tentando se esquentar, e entrou, batendo com a porta na cara da filha, sem enxergá-la.


_ Não! - ela gritou sem reação alguma.


Ao virar-se viu o vulto sorrir, mas ainda sem mostrar o rosto; então voltou a correr rua acima tentando fugir, ou encontrar alguém. Não sabia o que estava fazendo e muito menos o que tinha acontecido, mas não queria deixar aquilo chegar perto dela.


Foi quando seus passos se tornaram cansados e ela viu o homem parado atrás dela. De repente ele correu em disparada ao seu encontro. Catherine gritou até o ar de seus pulmões se converter em sangue; e viu aqueles olhos vermelhos naquele rosto velho e branco avançarem em seu rosto.


O vulto saltou em cima dela, e a jogou até um beco, onde arrancou suas roupas.


A língua do velho asqueroso salgou seu rosto e seus seios que ficaram completamente expostos. Os olhos vermelhos dele a deixaram perplexa que nem ao menos sentiu dor ao ser estuprada. O velho gemia e mantinha um vigor selvagem, como se fosse um bicho; e ao final, ao corromper a carne dela uivou como um demônio, e lhe deu um tapa na cara. Saiu correndo em meio a noite, levando consigo a escuridão das ruas.


As luzes voltaram.


Naquele momento, Catherine estava completamente nua; com o corpo enxarcado em sangue; de olhos abertos e com a boca babenta.


No dia seguinte seus pais estavam extremamente preocupados, mas ouviram as sirenes das ambulâncias pela rua; saíram ainda de roupão e viram sua filha sendo levada.


_ Catherine! - gritou sua mãe.


Ela estava chocada e ainda com os olhos abertos hipnotizados pelo vermelho demoníaco.




Passou-se algum tempo e Catherine se recuperou; havia passado um ano em estado vegetativo; tentando encontrar um caminho em sua alma para voltar.


Quando saiu do coma foi levada para casa.




Naquele dia, seu pai a trouxe, e, estranhamente, Catherine já não guardava tamanho trauma em si, podia andar naquelas ruas que não se recordava euforicamente; sabia o que tinha acontecido, mas aquilo não mais a perseguia.

Entretanto, ao abrir a porta viu a mãe coçando as mãos.


_ O que houve mamãe?


_ Bem...


_ Pode dizer. - disse calmamente.


_ Tenho que lhe apresentar a duas pessoas. - a mãe ficou parada e depois virou-se, no intuito dela acompanhar-lhe.


Nisso, ela mostrou um berço, onde havia duas crianças.


_ De quem são esses bebês? - disse Catherine já um tanto nervosa.


_ São Alicia e Morgan...


Suspirou em meio à perplexidade de Kate.


_ São seus filhos; disse chorando, enquanto a garota afundava seus olhos nas crianças em pânico.



Continua...






segunda-feira, 12 de maio de 2008

Senhor de Duas Faces (Início)


No começo dos tempos, quando a terra, o mar e os céus foram criados, só havia um centro de poder; o Senhor de Duas Faces.

Durante a criação ele desencadeou outras forças de poder, dentre elas os comandos do bem e do mal dados a seus dois filhos: Luz e Escuro. Cada qual treinaram por séculos até alcançarem poder suficiente para domarem suas funções no mundo que viria a ser criado.

Ao atingirem os objetivos de seu pai passaram a ser chamados de Senhor da Luz e Senhor da Escuridão. Mas não tinham onde e em que usarem seus poderes, pois nada havia; apenas natureza.

Foi quando o Senhor de Duas Faces criou o ser vivo; humanos, fadas, gnomos, sereias, tritõe, elfos, bruxas, virtúrios, paranóicos, animais, monstros, anjos e divinos. Todos esses seres tinham aptidões diferentes, e ao serem jogados ao mundo se repartiram entre o Senhor do escuro e o da luz.

Tal fato começou a iniciar guerras demasiadas que provocaram a morte de centenas de seres, sejam humanos ou não. O Senhor de Duas Faces então enterveio criando três grandes imperadores: Hosdrick, Artropópolus e Nabucodonossor. Tais histórias têm suas peculiariedades, seguem ditames próprios; mas ainda com tais imperadores, por diversos motivos, não foi conseguido assegurar a paz; e seus filhos não temiam a morte, pois eram imortais; e jamais poderiam ser mortos, mesmo por que seu pai não os mataria.

Passou-se um tempo e o Senhor de Duas faces prosseguiu a quilômetros do Universo tentando encontrar alguma força que lhe pudesse dar paz ao menos à mente.

Possuia dois filhos que se aniquilavam, e não sabia nem ao menos quem era o bom ou o ruim.

Eis que sentiu, dos confins de galáxias desconhecidas, do outro lado do grande redumo de pó, a porta de sua chance.

Lá havia uma energia tão grande e tão desconhecida que ele a temeu; eis que tentou se comunicar.

De um espaço negro havia um turbilhão de luz rosa que se expandia a um monte no início das estrelas. Daquele monte se via uma taça coberta por uma tampa, de lá ele sentia aquele imenso poder.

_ Quem és? Aquele divino que nunca criei? Como podes ser isso, se desconheço de sua existência? - perguntou o senhor com os cabelos ao vento do sem ar.

A taça respondeu.

_ Sou tudo o que existe; trancafiado e sem interesse; escolho aquilo que quero, e vou onde quero ir. - disse rigidamente.

_ És maior que um Deus? Possui tamanhas liberdades!

_ Sou mais que tudo, pois sou tudo. Sou energia e vejo que tens algo a desabafar.

_ Estou condenado! - gritou o Senhor - Meus filhos degeneram tudo o que criei; e estão se matando.

_ O seu mundo foi criado com falhas. Deste a liberdade a quem não podia ser dotado de tal; e resplandeceu sentimentos subjetivos demais para seres sem poder algum.

_ Mas foram treinados!

_ O treinamento mostra sua degeneração, pois não nasceram puros.

_ Puros? - perguntou o homem de duas faces.

_ Aqueles que nascem puros são a concórdia do poder de resolução; dotados de armas eficazes e que saberão, sempre, qual o caminho certo a seguir; ainda que a explicação não seja momentânea.

_ O que devo fazer?

_ Prevejo uma tormenta em sua existência; mas creio que seus desejos serão satisfeitos; crie um ser puro; que este dará concórdia aos seres que tanto tens pena.

_ O que devo fazer?

O ser enigmático lhe contou em segredo tudo o que faria.

_ Já sabe o que tem que fazer; eu sou o poder total; sou tudo e todos; e escolho o ser puro para trazer concórdia ao seu mundo, ainda que levem anos.

_ Está decidido.


O Senhor de Duas Faces criou um ser puríssimo; uma mulher que seria esposa de Artropópolus, o imperador dos Divinos, e que seria incumbida de trazer a profecia da taça universal; do poder total. A ela, deu o nome de Bonjourier; a Rainha do dia, que traria a luz a si própria e à escuridão.

Bonjourier fazia visitas periódicas ao templo de Duas Faces e sempre se confessava e perguntava o porquê de sua criação; e qual a função de sua existência.

_ Com o tempo saberá.

Entretanto, ela nunca soube ao certo de sua existência, pois o fato a que foi criada ocorreu algum tempo depois.

Das profundezas do Inferno o filho bastardo do Senhor da Escuridão, que ainda não será estipulado na história, invejava o nascimento de um vampiro-demônio.

_Maldito que seja! - gritava batendo as mãos às paredes.

_ Acalme-se! Não tenha ódio de seu irmão. - disse o Senhor da Escuridão ao olhar aquela criança enxarcada em sangue e com os olhos brancos, a boca aberta com dentes pontiagudos.

Escuro olhava maravilhado.

_ Eis que você destruirá o mundo; a ti dou o nome de... Scoron! - e gargalhou em meio à lava jorrada quente pelos rios do submundo.


Aqueles tempos estavam se iniciando; a Era da Escuridão estaria por começar.

Aos momentos sucederam que Bonjourier cumpriu seu papel e conseguiu desencadear o poder total, mas o medo contagiou ao mundo criado, pois seu mestre desaparecera, quando o Senhor da Luz foi assassinado.

Bonjourier gritou ao momento.

_ Eu o matei! - urrando a plenos pulmões, praticamente sem um afago de ar.

E Scoron sorriu ao ser lançado pelo poder total às profundezas do Inferno.


Essa história é uma mitologia de "O Faisão da Luz" - meu livro que trará a continuação dessa história; não trarei continuação no blog; daqui alguns tempos, qualquer um poderá saborear dessa história, que espero tomar conta de suas mentes.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Oh July, my wonderful Julyberry (Parte III)


_ Aaaaaah! - gritava July se desfacelando como as framboesas da colheita nunca pegas; como as nozes caídas secas e não contempladas pelos esquilos.
July viu o corpo de Rob voar por cima do carro; e em meio a baixa visão de seus olhos encobertos pelo vento em seus cabelos, ela o viu rasgar-se pelo chão quebrando a perna; e machucando o rosto.
O carro de Bogher arrancou forte demais batendo com tudo na árvore logo à frente. A dianteira do carro foi enterrada junto com o corpo de Bob no tronco; e as gotas de geléia de cereja decaíram sobre a grama fresca.
July tentou levantar-se para socorrer Rob, mas perdeu seus sentidos completamente e voltou a cair ao chão. Havia sujado seu vestido vermelho de bolinhas brancas, e os caracóis de seus cabelinhos se despentearam com o impacto.
As ambulâncias gritaram.
July conseguiu ainda ver o borrão de Rob sendo levado numa maca; depois disso, foi sua vez.
Os corredores brancos do hospital estralavam as luzes em suas pupilas; como torrões de açúcar de confeiteiro que salpicado gerava gomos de embasso em sua íris. Não estava enxergando mais nada.
_ Ah! - suspirou e desmaiou.

No dia seguinte, July acordou na cama do hospital. Estava com os braços enfaixados e um pequeno curativo no rosto. Tentou chamar a enfermeira, mas esta não veio. Então, tentou levantar para conseguir alguma informação de Rob.
Conseguiu manter-se firme sobre suas pernas e foi até a saída.
Lá falou com uma enfermeira que a repreendeu por estar ali naquela situação; de capa e machucada.
Tentando empurrá-la para o quarto, a enfermeira acabou abrindo a porta do lado sem querer; e de lá July viu Rob.
_ Rob!
July correu até o quarto de Rob.
_ July! - ele disse sorrindo com metade do rosto enfaixado.
_ Você está bem?
_ Estou sim. Me sai bem dessa.
_ Quebrou algo?
_ Sim a perna esquerda; mas de resto nada, apenas alguns cortes.
_ Que bom! - e lhe deu um beijo no rosto.
_ É tão bom sentir seus lábios mais uma vez.
July sorriu.
_ E Bogher? - perguntou Rob.
_ Não sei... - e foi interrompida.
_ O rapaz no carro faleceu, senhor. - disse o médico ao entrar no quarto.
_ O que? - disse Rob desapontado.
_ Eu sinto muito.
_ Bob! Morto... - disse July colocando as mãos sobre a cabeça, desnorteada.
_ O choque do carro foi muito forte, ele morreu na hora.
July abraçou Rob chorando um pouco. E o dia não logrou ais nada.


Passou-se o dia em tristeza; mas no dia seguinte, July voltou para visitar Rob.
_ Bom dia!
_ Bom dia July! Como está?
_ Melhor!
_ Que bom!
_ Vou ter alta hoje.
_ É mesmo? Que ótimo, eu só em uma semana, até a perna melhorar.
_ Eu virei te buscar quando sair do hospital. - disse July muito feliz.
_ Eu vou adorar.
E os dois se beijaram.
No final da tarde, July saiu do hospital sem se despedir de Rob. Mas no dia seguinte voltou com um presente.
_ July! Foi embora sem se despedir de mim! - disse um pouco irritado.
_ Sim! Porque tinha algo especial para fazer!
_ O que é tão especial?
_ Isto! - disse mostrando a caixinha.
_ O que é?
_ Abra.
Rob abriu o pacote e encontrou seis tortinhas de frutas vermelhas polvilhadas com açúcar de confeiteiro, e recheadas de frutinhas e pasta de baunilha.
_ Que lindo, July!
_ Eu fiz para você!
Ele saboreou um dos doces e sentiu aquele amarguinho de morangos serem adocicados pelas amoras e framboesas.
_ Delicioso.
Nisso uma das enfermeiras entrou no quarto; era uma das espevitadas que criava amizade fácil, e ao olhar os docinhos quis logo um; pegou-o sem permissão e o levou à boca sem dó.
_ Mais que coisa maravilhosa!!! Tão gostoso! Você que fez querida?
_ Sim! - disse July um pouco lisonjeada.
_ Explêndido! Você deveria vender doces! É muito boa.

July pensou em algo.

_ O que passa nessa cabecinha? - perguntou Rob.

_ Nada. - e pôs-se a rir.


Enfim, cada dia que seguia, July voltava ao hospital trazendo novos doces cada vez mais apetitosos; e não só Rob os devorava, já que a comida do hospital era péssima. As enfermeiras iam todos os dias comprar doces e mais doces de July; que não parava de encher caixas e mais caixas a cada dia que voltava ao hospital.

E não só isso, passava em alguns quartos dando doces aos pacientes, claro na medida do possível dentro de cada dieta.

_ Minha querida, muito obrigado por trazer alegria a um velho solitário. - disse um senhor, muito carinhosamente a July.

_ De nada. Qual o nome do Senhor?

_ Donell!

_ Não tem ninguém no quarto; ninguém veio visitá-lo hoje?

_ Não, minha querida, sou um velho sozinho; ninguém mais se lembra de mim. - disse triste.

_ Ora, vamos! Eu virei todos os dias visitá-lo!

_ Seria ótimo! Mas não posso comer tudo isso todo dia; meu diabetes irá ao espaço!

_ Hahaha.

A alegria de July durou alguns dias; até que Rob teve alta do hospital.

_ Tenho que dizer adeus ao senhor Donell. Ele sempre foi uma ótima pessoa.

_ Vá sim, July. Nos encontramos lá embaixo.

July foi visitar Donell no quarto, e quando chegou teve a incrível surpresa de vê-lo de pé.

_ Sr. Donell! Que maravilha estar de pé!

_ Sim! Finalmente vou ter alta. Não aguentava mais ficar preso a essa cama.

_ Eu também estou indo embora; Rob teve alta hoje também.

O homem sorriu; depois olhou para o rosto delicado e rosado de July.

_ July; você sabe com o que trabalho?

_ Não, puxa! O senhor nunca me disse.

_ Sou dono do Sweet Donell.

_ Oh meu Deus! A maior doceria de Londres!

_ Exatamente! - e sorriu.

_ Eu adoro ficar na vitrine de lá olhando tantos e tantos docinhos!

_ Gostaria de convidá-la para trabalhar comigo.

July ficou espantada e balançou os cabelos com muita surpresa.

_ Sr. Donell! Que maravilhoso! Mas será que eu conseguirei dar conta?

_ Claro que sim! Não aceito um não como resposta.

_ Então tenho que dizer... Sim! Hahahaha.

_ Que bom! - e o velho sorriu.

July e o Sr. Donell desceram juntos pelo elevador; e lá embaixo, Rob a esperava com um buque enorme de rosas vermelhas e flores do campo. A garota ficou extremamente feliz; e abraçou o ramalhete com as duas mãos; depois beijando seu Rob; que reconstituíra os cordões dos violinos e poderia voltar a tocar.

Naquele instante, a vida de July havia mudado.

O destino a ajudou a perder aquilo que seria um erro; e lhe deu de presente a felicidade. Não só conseguiu alguém que a amasse, ainda que a paixão tenha sido à primeira vista; mas também o emprego que sempre quis.

Afinal; July, quando criança, havia descoberto cozinhando; que o amor é o ingrediente essencial em qualquer receita.


Fim.

domingo, 4 de maio de 2008

Oh July, my Julyberry! (Parte II)


_ Sim. - disse July maravilhada ao encontrar as pupilas do desconhecido em conssonância com a sua, de modo que os rancores do violino sopraram por entre seus dedos até alcançarem seus ouvidos suavemente.

Bogher percebeu que ela não estava olhando para ele ao dar a resposta; e a pegou delicadamente pelo rosto; rogando um olhar de desprezo ao violinista. O rapaz logo se distanciou, e continuou a melodia.

July ainda sorria abertamente quando se deparou estar olhando para Bogher, aquele que queria ser noivo; o que acabara de lhe pedir em casamento.

_ Que bom que aceitou minha linda! - disse Bob um tanto desconcertado, mas feliz com o sim - ainda que suspeitasse não ter sido para ele.

July~também estava pasma, e sorriu falsamente, com ares de desespero ao confirmar o sim.

Bogher se sentiu maravilhado e a abraçou. Mas ela reprimiu os olhos como se quisesse sair correndo daquela mansão naquele instante. Do outro lado do abraço, Bob mandou que o violinista se retirasse.

_ Saia! - sussurrou.

Naquela noite, Bogher e July não mais conversaram. O pedido de casamento acabou sendo frio, metódico e a resposta forçada, e muito, por um devaneio que July não quis contar.

Ao chegar em casa ela deitou-se sem ao menos tirar a roupa do corpo; e tentou dormir imaginando que nunca tinha visto aquele violinista.

_ Não seja tola! Eu não posso ter me apaixonado por um simples olhar!

Dormiu.

No dia seguinte tinha acordado melhor, mas aquela musiquinha não tinha saído de sua cabeça. Continuava a pensar nos detalhes, mas o rosto do jovem lhe era um borrão. Por incrível que pareça, sorria por se lembrar de alguém do qual não recordava mais; e como se essa pessoa lhe tivesse feito um pedido de casamento.

_ Eu sempre quis me casar! Bogher é um excelente partido! Não posso perder essa oportunidade, ele me dará estabilidade, um lugar bonito para viver, jantares... e aquela comida horrível! - suspirou - Burra, você se apaixonou. - pegou a bolsa e foi para a faculdade.


A Faculdade de Londres ficava ao lado da Grande Escola de Música; e aquele meio se tornava um grande primor em artes; juntamente com a Faculdade de Artes Cênicas.

Chegando um pouco atrasada viu um jovem caindo no chão com seu Trompete gigantesco; e sentiu pena, foi lá ajudar.

July pegou o trompete com o menino e o ajudou a levantar.

_ Você está bem? - disse carinhosamente ao perceber que se tratava de um incidente naquele ano.

_ Estou, obrigado!

_ Lil! - gritava um homem logo atrás.

_ Oh! - suspirou July.

_ Lil você está bem? - perguntou o rapaz.

_ To sim! Essa moça me ajudou.

Quando ele olhou-a teve um choque.

_ A... a...

_ Oi! - e sorriu.

_ Sim... Oi... Bem, meu nome é Rob; esse é meu irmão Lil; ele estuda música aqui.

_ Sou July, faço gastronomia aqui ao lado.

_ Me desculpe! - disse admirando-a.

_ Por que? - ela comentou tentando não possuir um flerte insinuativo.

_ Bem! Eu vou indo! Estou atrasado. - disse Lil.

_ Sim Lil pode ir! July... - e sorriu.

_ Eu tenho que ir. Estou atrasada, que nem seu irmão.

_ Tudo bem. A... desculpe de novo, ontem foi sem querer.

_ Não tem problema senhor violinista. Eu estava apenas ouvindo a música.

_ Haha. - riu.

_ Até. - ela cumprimentou de longe.

_ Até. - ele retribuiu.

E foram andando. Da porta da faculdade July virou-se e viu que o violinista estava parado olhando para ela. Ela sorriu novamente e foi falar com ele.

_ Você não tem aula? - perguntou.

_ Não! - sorriu docemente.

Caminharam aos arredores e depois por um parque que ficava próximo, contando sobre o que faziam. July falou sobre seus dotes culinários, e que estava namorando Bogher. E Rob contou que era violinista da orquestra londrina; mas naquela noite havia tocado no jantar dela, a pedido de seu tio; o pai de Bogher.

_ Jura que são primos?!

_ Sim, somos. Não temos absolutamente nada a ver; mas somos sim. Eu sou o Landfell desgarrado dos bons costumes da família.

_ Oh! Eu acho ótimo, eles acabam sendo engomadinhos demais. Eu fui atendida por 5 criadas!

_ É que a sexta estava de folga.

_ Hahahaha. Você sempre faz piadinhas com sua família?

_ Sempre que consigo achar uma boa, sim.

E sorriram juntos.

_ Escute, July. - e parou respirando. - Eu fantasiei que você tinha dito aquilo pra mim ontem a noite. Não consegui respeitar seu aniversário.

_ Não tem problema. Eu mesma fiquei pensando nisso a noite inteira.

_ Sério?

_ Sim. Eu não quero me casar com Bogher ainda.

_ Entendo.

_ E...

Parou um pouco.

_ ... o sim não foi pra ele.

Rob parou e olhou-a profundamente.

_ Esse olhar eu já conheço. - disse July.

_ Teria sido ótimo se o sim fosse pra mim.

Os rostos se aproximaram e os dois se beijaram.


Mas na outra esquina, em seu carro, Bogher via a cena e explodia em fúria. Num ato medíocre e obscecado ele partiu em alta velocidade para cima dos dois na calçada do parque.

As pombas que depositavam seus bicos à beira das poças planaram exasperadas.

O vento soprou pelos cabelos de July fazendo com que ela afastasse o rosto de Rob, temendo que algo aconteceria.

Naquel momento; as tortas de framboesa caíram da última prateleira do mosaico de mogno; explodindo seu doce recheio pelo chão.

AS crianças viram o carro e correram pelas ruas.

Os olhos de Bogher dilataram ficando muito vermelhos.

Rob virou-se naquele momento; e sentiu as cordas dos violinos estourarem em seus ouvidos.

O agudo foi tão forte, que se juntou ao grito de July, quando viu Bob arrancar por cima da calçada; e ao Rob lhe empurrar contra a grama; enquanto era elevado e lançado por cima do capô.

O carro de Bogher bateu fortemente numa árvore do parque.

July caiu ao chão ainda gritando em terror; havia rasgado suas mãos no asfalto e as sujado com a framboesa jogada.

Rob sujou o corpo com seu sangue; e apenas uma corda de violino sobrou.

_ Rob!!!!!


Continua...


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Oh July, Julyberry


July sempre foi uma garota muito aplicada em seus estudos; e quando terminou o colegial se deparou com a questão do que iria fazer da vida. Porque, apesar de ser tão estudiosa jamais tinha se visto em nenhuma profissão em que pudesse utilizar o que havia aprendido na escola.

Uma coisa era certa, não queria ser médica, ou advogada, nem engenheira, nem mesmo atleta ou artista.

Então lembrou-se que todos os dias que chegava do colégio ia preparar o almoço junto com sua mãe. Sempre a surpreendia utilizando-se dos mais apurados temperos; e fazendo invenções extraordinariamente deliciosas.

Eis que ela se deparou com seu caminho, sua vida tomaria rumo.

_ Vou ser cozinheira! Uma cheff! Uma Gourmet!

July então entrou para a Faculdade de Culinária e Gastronomia de Londres, e viu que realmente estava no local onde sempre quis estar. Sua cozinha era seu escritório, e poderia levar trabalho para casa. Seu paladar e olfato eram seus guias. Suas mãos seus maiores instrumentos de trabalho. Mas sua criatividade imensa, oh sim!, isso realmente era o essencial para sua função.

Passados três anos ela se formou, sempre muito elogiada por seus professores. Havia conquistado diversos troféus e prêmios na faculdade por suas atividades exemplares; além de ser parabenizada e até mesmo invejada pelos maiores confeiteiros e cheffs de toda a Europa.

Durante o curso, July conheceu um rapaz chamado Bogher Leindfell; que era de uma família de ingleses muito ricos; possuidores de grandes mansões; propriedades verdes aos arredores de florestas, e que se dedicavam ao comércio marítimo. Bogher era muito bonito, tinha um porte inglês típico, um tanto esnobe por sinal, ombros largos, cabelos aloirados, olhos azuis e pele branca com as bochechas um pouco rosadas.

July, ao encontrá-lo pela primeira vez nos corredores da faculdade, ficou pasma. E a situação piorou quando ele a notou. Sim, a jovem July, de cerca de um metro e setenta; olhos e cabelos castanhos; e de bochechas fofinhas, havia chamado, e muito, a atenção de Bogher.

Não bastaram dois dias, e eles já haviam se tornado grandes amigos.

July chegava da faculdade e preparava tortas de amora, de morango, de uva, de maçã, de pêra; construia castelos de pão-de-ló de chocolate; glaciava bolos de nozes, demolia barras e mais barras de chocolate; e empilhava bolas e mais bolas de sorvete, de chocolate, de pistache, de menta, de licor de cereja, de maracujá, até de grapefruit. Após tantos doces ela saia de casa em casa da Rua Boirnam, entregando doces aos vizinhos e lhes desejando uma vida doce e suave.

Realmente ela havia sido fisgada por aqueles olhos azuis.

Passado um mês, chegara o aniversário de July. Na ocasião Bogher a chamou para um jantar em uma de suas mansões. July, que não era de família abastada achou tudo aquilo maravilhoso, e aceitou na mesma hora.

Ao chegar ao "Palácio dos Leindfell" July vou recepcionada por cerca de cinco criadas, fora o motorista que lhe havia aberto a porta. A primeira criada lhe cumprimentou gentilmente elhe disse:

_ Seja bem-vinda, Senhorita Berry.

A segunda e a terceira, logo em seguida, lhe retiraram o casaco e colocaram duas gotas de essência de gardênia, uma em cada pulso. Por fim, a quarta lhe cumprimentou, e apontou uma grande porta de mogno lustroso; a abrindo em seguida. Já a quinta criada apenas anunciou.

_ O Senhor Leindfell está ancioso em vê-la.

Após toda a cerimônia, July estava desconcertada, e de boca aberta, nem mesmo as olheiras aguentaram e decaíram um pouco, porque seu sorriso já não era mais aparente.

Eis que Bogher estava sentado numa mesa de jantar para quinze pessoas, com castiçais em cristal, repletos de velas decoradas de ornamentos dourados; e um grande vaso inglês estufado de rosas vermelhas.

July achou aquilo tudo muito para si; mas, ainda assim, apreciou, nunca um homem havia feito algo tão grandioso por ela.

_ Boa noite minha Julya! - disse Bogher.

_ Apenas July, Bob. - disse ela repleta de embaraço e com as maçãs corando.

Bogher levantou-se e foi até ela beijando-lhe o rosto e a acompanhando até a mesa, sentonda-a em seguida, logo à sua frente, numa das extremidades da longa mesa.

Mais duas criadas apareceram dispusendo de uma farta entrada com pães e aperitivos.

July praticamente se assutou, porque não estava ali para comer.

_ Quero que essa noite seja especial, July.

Ela apenas sorriu, saboreando um dos pães.

_ Humm. - ela grunhiu.

_ Pães deliciosos, não?

_ Não. Estão fora do ponto!

Bogher se surpreendeu.

_ Oh, vou tomar satisfações com o confeiteiro.

_ Não há necessidade. - e sorriu de novo.

Passado um tempo conversando, veio logo o prato principal.

_ Pato ao molho de laranjas e alecrim. - disse o cheff, que foi pessoalmente levar o prato.

_ Parece delicioso. - mas ela já havia sentido o cheiro do pato à distância e sabia que não ia gostar.

A primeira garfada ela mastigou, e com dificuldade engoliu. Seu paladar era insubestimável. Mas eis que Bob perguntou.

_ O pato está maravilhoso, não acha, July?

_ Não! Sinto muito, mas está com muito alecrim, a dose tem q ser respeitada, pois esta carne não pede alecrim demais, se fosse um faisão ou uma codorna sim, mas nunca em um pato.

O cheff ficou cataplético! Bob não sabia onde enfiar a cara.

E July, cobriu a boca com muita vergonha.

_ Oops! Acho que falei demais.

_ Magina, July. Este pato está mesmo uma droga! - e sorriu.

Bem, ao final do jantar, ela resolveu perguntar o motivo dele tê-la trazido a uma ocasião tão especial.

_ Eu a trouxe aqui, porque gostaria de lhe fazer um pedido.

Eis que um violinista jovem e muito bonito apareceu ao lado do casal.

E foi nesse instante, que July o olhou fixamente. A música que tocava era absolutamente linda; e o violinista perebeu que a garota não estava olhando para o principezinho, e sim para ele.

_ July... - sussurrou Bogher.

_ Sim? - e ela virou-se rapidamente.

_ Aceita se casar comigo? E ser minha noiva?

Naquele momento, ela havia desviado o olhar novamente para o violinista tão belo e gracioso; e olhando no fundo dos olhos daquele desconhecido, respondeu com um sorriso ingênuo e muito espontâneo.

_ Sim.


Continua...