Eu pude conhecer alguém que acreditei que me faria feliz. Eu o conheci em alma pura e transparente, ele veio a mim em noites quentes para tocar minha pele, e veio em noites frias para me aquecer, impedindo que o sopro frio da madrugada pudesse me fazer tremer.
Eu lhe pude confiar todos os meus sentimentos e compartilhar todas as minhas histórias, tanto boas quanto ruins, eu lhe cantei em mala voz, já que não tenho esse dom, eu lhe entreguei meu coração.
Sei que vivo criando barreiras e mais barreiras para encontrar a minha felicidade, mas dessa vez eu tenho um martelo e um muro gigantesco em minha frente. Poderia eu quebrar esse grande muro de pedras sem que ele desabasse sobre minha cabeça e me esmagasse em um só suspiro? Ou talvez poderia eu quebrá-lo e fazê-lo cair ao outro lado para que, ainda que com dificuldade, eu pudesse caminhar sobre as ruínas e encontrar o outro lado.
Talvez a felicidade se pareça com esse muro caído ao outro lado, apesar de em ruínas você acabou conhecendo o que jamais vira; e isso pode lhe impressionar ou não. Se não impressionar você simplesmente continuaria caminhando em busca de um novo muro que pudesse derrubar, ou ao menos que gostaria de derrubar.
Eu mesmo consigo olhar para trás e ver os diversos muros que caíram, contudo sobraram as ruínas, elas não foram removidas, permanecem intactas e às vezes me fazem pensar onde estou, e onde quero chegar.
Eu não cheguei a lugar nenhum sem lutar e sei que deverei continuar lutando por muitos e muitos anos em minha vida, mas eu rogaria por um pouco mais de paciência, ou força, ou até de uma certa ajuda; não precisaria facilitar demais, apenas abrir uma porta, ou só uma fechadura, o resto eu sei que sou capaz de mostrar.
Eu nasci em um berço de ouro cercado por cobras e anjos; uma guerra, talvez uma arena de gladiadores. Eu vivi eu um mundo incomum, e cresci num mundo de sofrimento, o meu mundo, aquele além das portas de sua casa.
Eu desenhei um rosto bonito em minha face e não encontrei explicação para fazer jus a tantos dons maravilhosos ao mesmo tempo, contudo, eu não fui dotado da aparência que os homens ostentam; da aparência que eu gostaria de ter para que chamasse atenção dos que almejam ser afortunados. Mas será realmente que eu gostaria de ter isso, ou só me basta o meu rosto indefeso?
A resposta é "não sei". Não conseguiria responder isso, porque não sei o que a vida poderia me proporcionar, e não saberia o que a vida teria me proporcionado se houvesse tomado outro caminho. Apenas acredito que as coisas seriam diferentes.
Enfim, esse não é um lamento, essa vida pinta um pano de fundo deste retrato, partiremos agora à face.
Os olhos castanhos com um tom de caramelo desencadeiam algo em mim, adoro meus olhos. A boca cheia, o lábio inferior levemente saltado, exceto quando estou triste, fica normal para dentro. O nariz, acho um pouco grande, mas nele vejo a minha personalidade. As sobrancelhas arqueadas, não por desdém, mas porque gosto de movimentá-las assim, e os olhos ficam mais puxados aos lados, quase como de um oriental, acho bonito.
O pescoço branco e acetinado. As costas envoltas em chibatadas das milhares de descrenças que já ouvi; as mãos cobertas em sangue das respostas que dei àqueles que me magoaram; os pulsos cortados, à vista de minhas desilusões; o coração dilacerado a ponto de parar; os pulmões em êxtase pela falta de ar; as pernas inchadas pelo trabalho árduo; os cabelos despenteados pelo calor do fim do dia.
Eu fui espancado, eu fui amado, eu fui adorado, eu fui chantageado, eu fui traído, eu fui derrotado, eu venci, eu perdi, eu ganhei, eu dei a volta por cima, eu cai, eu revigorei, eu me matei...
Eu quero ser forte, eu quero ter poder, eu quero amar e eu quero ser feliz...
Todas essas noções se espelham num só rosto, num projeto macabro, num raio de luz, ou até em um papel dobrado. Desenhos sintéticos e rabiscos elaborados, eu sou essa plataforma de contradições que ressurge após cada queda, e apesar de me darem inspiração para lhes escrever isso, um dia irão me dilacerar de tal forma, que não mais terei forças ou vida para escrever novamente.
2 comentários:
Como sempre, você escreve muito bem! Não é a toa que coisas boas estão por vir e assim espero pela tua felicidade e conquistas! Grande abraço de um amigo quase "distante", rs.
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