terça-feira, 12 de agosto de 2008

As lágrimas que nunca chorei - Parte II


No dia seguinte, Jane saiu de casa para ir ao colégio.


A visão da noite passada, um tanto atormentadora, não tinha sido real. Tudo foi apenas um sonho, e ela passou a repensar sua vida. Assim como havia se apaixonado por Tom, seu amor se desfez rapidamente. Como que elevada por anjos, Jane passou a se concentrar em tudo aquilo que quase havia perdido: seus amigos, seus pais e, principalmente, seus estudos.


Jane agia como se tivesse em seu sonho; e tentando não deixar escapar tamanhos tesouros passou a se dedicar em dobro.


Numa terça feira ela se aproximou da mesa da professora de Matemática, Rose e disse com ar de desapontamento:


_ Sinto muito por decepcioná-la. - e deixou cair uma lágrima de seu rosto.


Rose sorriu espontaneamente, com ar de preocupação.


_ O que houve, Jane?


_ Nada, professora. Só queria que soubesse que a admiro muito e que estou decidida a estudar muito.


_ Mas você é a melhor aluna do colégio, Jane.


A garota virou-se e Rose não entendeu absolutamente nada do que aconteceu; mas enfim, tolerou.


Na volta para casa, Jane descia a rua quando o carro de Tom passou ao seu lado. Por um segundo ela sentiu a amargura dentro de seu pescoço; e um ardor incômodo no nariz. Sentiu seus olhos regarem, mas prefiriu continuar caminhando. Secou os olhos e entrou em casa. Tom não estava na rua, já havia se escondido no interior da casa, e realmente ela não queria vê-lo, precisava arrancá-lo de seu coração. Custe o que custar.


A vida de Jane seguiu a diante até que chegou ao terceiro colegial.


A essa época, já com 17 anos; Jane havia se tornado uma jovem muito bela. Os cabelos loiros compridos, a pele branca e sedosa, as bochechas rosadas e cintilantes, os lábios carnudos.


Era uma espécie de objeto de desejo de alguns, mas a maioria não gostava muito dela. A achavam metida, uma cdf que gostava de tirar notas boas e se mostrar com elas. A queridinha dos professores. A mais perfeita do colégio, que não media as palavras quando alguém ousava lhe zombar.


Esse ano foi um pouco difícil para Jane, apesar de ter superado o pesadelo que teve com Tom, tinha que vê-lo praticamente todos os dias, afinal moravam frente a frente, e seu quarto era virado para a casa dele. Além disso, estava se preparando para o vestibular e queria muito cursar Direito numa faculdade pública, a melhor em sua concepção. Todos os seus esforços tinham se voltado a isso, e ela acabou tendo que conciliar horas de estudo com horas de trabalho no colégio.


Mas, intrigante era o fato que havia se esquecido de algo. De seu coração.




Quando acordou no hospital relembrando de fatos que nunca aconteceram percebeu que deveria expor os fatos de sua vida tal como imaginaria ser; e por isso prometeu a si que o escreveria. Colocaria num livro todos os seus sonhos; desencadearia formas de amor que vão além da vida; e quem sabe, um dia poderia ter um fim onde não restariam lágrima de dor, mas apenas de felicidade.




_ Passei! - gritou Jane extasiada ao ver que havia passado na faculdade.


Bem, não havia sido a de seus sonhos, mas era também extremamente respeitada faculdade de Direito; e sabia que podia construir um futuro brilhante por lá.


As adaptações àquele novo ambiente foram drásticas; pessoas muito bem vestidas, rostos bonitos e diferentes, um lugar que despertou emoções fortes em Jane, que se viu encorajada a mudar seus modos para se enquadrar.


A primeira e desconcertante semana foi seu ponto de intersecção mais precoce e ela resolveu mudar de vez.




Segunda feira Jane saiu de casa às 6:30 da manhã. Tom estava saindo junto e parou para admirar a jovem com sandálias lilás, saia curta rodada creme, blusa decotada em U lilás, os cabelos loiros soltos e com mechas um tom mais claras; rímel aos olhos, rosa claro aos lábios; uma corrente de ouro entrelaçado; e uma bolsa a la Dior. As maçãs rosadas.


_ O que é essa menina?


Jane nem ao menos olhou para Tom, entrou no carro sport de seu pai e foi para a faculdade.




Sua segunda semana de aula fez os demais perceberem-na, mas ela também começou a notar muitos que lhe interessavam.


Jane, tímida que era, estava começando a virar uma galante garota, com um ar exótico de menina inocente. Uma flor por desabrochar.


Já tinha feito amigas, as mais belas de sua sala, claro.


Durante o intervalo, eis que seus cabelos flutuaram perante seus olhos; e a imagem daquele rapaz deslumbrou seus olhos.

O jovem, de nome desconhecido tinha bochechas rosadas como as dela; e usava uma linda camiseta branca, gola V, profunda a ponto de chegar ao centro de seu peito. Estava deslumbrante, uma calça jeans apertada mostrava glúteos arredondados; e seus cabelos castanhos-claros, um pouco cacheados recaíam sobre suas orelhas e lhe faziam ter um ar europeu. A pele era branca e Jane podia sentir seu perfume à distância.


Ela não obteve sinais do envolvimento dele, mas passou a reparar cada vez mais que certas vezes olhares do rapaz eram lançados a ela.


E assim começou um jogo de olhares que demoraria para acabar. Jane flertou com aquele rapaz durante cerca de um mês até descobrir seu nome, Marco. Era judeu e vindo de uma família abastada, da qual imaginava nunca fazer parte; apesar de desejá-lo como nunca.


Certa vez, e aqui temos nosso ponto x; ela esperava pelas amigas na porta da faculdade, eis que ele apareceu, vindo em sua direção, mas sabia que ele estava indo ao estacionamento.


Marco olhou no fundo dos olhos de Jane e passou ao seu lado revirando a cabeça, como se seus olhos e os dela estivessem conectados, algemados, ligados e inseparáveis.


Depois daquilo ela o viu sorrir, e, então, sorriu para ele.


Naquela sexta feira Jane ficou extasiada e extremamente feliz. Passou o final de semana atrás de maneiras de fazer com que ele viesse até ela para que pudessem conversar.


Eis que chegou segunda, e ela não havia encontrado uma maneira sequer. Estava brava por sua falta de atitude; e no refeitório resolveu pedir duas rosquinhas de chocolate para que pudesse afogar seus sentimentos frustrados; claro com muita Coca-Cola para acompanhar!


_ Quero ficar gorda de raiva! - e virou-se.


A imagem foi de Marco à sua frente, olhando com cara de riso para aquela bela menina, muito magra e com dois pacotes repletos de chocolate, uma Coca Cola nas mãos e o canudo na boca; que, aliás, caiu quando ela olhou para ele.


_ Isso tudo é pra você? Haha - e riu.


_ É sim, tenho que me alimentar.


_ Tem mesmo, se não vai acabar sumindo...


_ O que?! - perguntou com ar de piada.


_ Nada! Acalme-se, só estou brincando. - e sorriu novamente.


Ela olhou para ele disse:


_ Sou Jane.


_ Marco. - disse e deu-lhe um beijo no rosto, já que não podia segurar suas mãos que estavam ocupadas com tanta comida.


As bochechas de Jane ficaram tão vermelhas que ela nem sequer pode olhar para o rosto dele. Mas ele não esperou, já continuou a falar.


_ Suas maçãs também ficam rosadas.


_ Sim. - e sorriu abertamente.


_ Marco! - gritou um amigo do rapaz o chamando para sentar-se à mesa.


_ Bom tenho que ir lá. Té mais.


_ Até. - disse Jane brevemente.


Um lindo começo para esses dois, e eu poderia dizer que daí nasceu um romance. Mas infelizmente, os dias seguintes não foram tão produtivos quanto Jane esperava. Marco acabou descobrindo sobre a família de Jane, que não era tão rica quanto a dele; além do que, ela não era judia, e sua mãe jamais aceitaria um namoro com uma cristã.


Jane acabou sabendo disso, não só com o desprezo dele, mas também com comentários em sua sala, de que ela estaria apaixonada por aquele garoto, mas que jamais conseguiria nada dele. Como uma menina extremamente metida de sua sala disse.


Jane sofreu.


MAS ESSAS FORAM LÁGRIMAS DERRAMADAS.


Marco se aproximou e raspou no corpo de Jane a olhando fixamente enquanto ela estava na rua.


Ele foi andando e olhou para trás sorrindo. Ao ver que Jane retribuiu o sorriso Marco voltou.


_ Oi.


_ Oi. - Jane não conseguia parar de sorrir.


Acredito terem bastado essas palavras, afinal nos últimos tempos os dois já se conheciam muito bem, pois trocavam olhares misteriosos e insinuantes o tempo todo, e estava estudando lado a lado.


Marco passou as mãos pelo rosto de Jane e segurou-lhe o queixo. As maçãs vermelhas quase tomaram seus rostos, e sentiu-se o açúcar de um beijo tão puro e macio que ela não se conteve em apoiar seus seios no peito de Marco.


Começava um romance que obteve frutos magníficos.


No entanto, esse futuro incerto de Jane tinha lá suas contas a pagar.


Quando descobriu do namoro, a mãe de Marco praticamente o deserdou, e ele colocou grande parte da culpa em Jane. A garota ficou impressionada tamanho o egoísmo e decaiu novamente.


Seus soluços eram ouvidos de longe quando ela correu pelos corredores da faculdade. Os olhos em lágrimas, recheados de tristeza.


_ A culpa é toda sua! - ouviu ele gritar.


Após uma longa conversa a mãe judia resolver tentar aceitar. A venceria pelo cansaço.


Lara, mãe de Marco, convidou Jane para todas as festas da alta sociedade, menos claro, às festas judias, já que sua presença poderia comprometer a imagem ortodoxa da família.


Jane ficava exausta e não tinha mais roupas para usar em tantos jantares, eis que um dia recusou.


_ Não posso ir Lara. Me sinto um pouco cansada.


_ Isso não é desculpa! Quero você lá hoje!


Lara sabia que teria que agir naquele dia.


Jane, que não vinha passando muito bem com a situação que enfrentava, estava exausta pelas provas que haviam se passado.


_ Marco! Seu tio Frank quer vê-lo.


_ Marco! A embaixatriz da Noruega quer vê-lo.


_ Marco! Sir Donald Bistchainter quer vê-lo.


_ Marco! Cumprimente sua prima. Eliza!


E L I Z A


Tal palavra ecôou na cabeça de Jane como facadas em seu estômago. Ela conhecia Eliza, ao menos as histórias de seu namoro com Marco quando eram mais jovens. Ele até havia formalizado um noivado.


Quando a viu, Jane teve suas facadas servidas em dobro; então arremessou-as com uma taça de champanhe bem gelado.


Eliza não era apenas uma mulher. Era deslumbrante, Condessa Elizabeth Knolps. Alguém de grande prestígio na família. Tinha cabelos loiros formosíssimos, pele completamente branca e sedosa; dentes cristalinos e muito brancos; olhos azuis perfurantes como foices e um aroma de baunilha impossível de ser enjoativo. Além do que usava um Dior vermelho com duas rosas de cetim; num corte provocante, desde a fenda da perna até o robusto decote.


_ Você deve ser Jane. - disse com um sotaque que lembrava o alemão; mas sem decoro algum.


_ Sim, é um prazer conhecê-la Elizabeth.


_ Eliza... - e puxando a mão de volta, sorrindo, disse entre os dentes - Claro que é.


Marco ficou completamente desconcertado com a figura de Eliza, que parecia uma rainha ou deusa.


Jane foi desprezada o resto da festa, e sabia que suas olheiras não eram comparáveis àquele modelo feminino de beleza e elegância.


Lara disse:


_ Leve Eliza para casa; eu vou com Jane.


_ Mas...


_ Obedeça! - disse severamente.


_ Vamos juntas querida. - disse Lara jogando Jane para dentro da limousine.


_ O que há com a senhora?! - perguntou Jane já com raiva.


Lara a todo momento olhou para frente, e não ia encontrar os olhos de Jane nunca mais.


_ Acontece que estou incomodada com sua presença em minha família. Tenho deveres a cumprir com Marco, casar-lhe com uma mulher de bem; dar-lhe um patrimônio e uma cultura exemplar estão dentre os quesitos. Portanto, não tenho o que discutir com você. Apenas estou ordenando que se afaste dele enquanto pode, porque eu também farei com que ele se afaste de você; e apesar de saber que ele a ama, quero que ele sofra o bastante para odiá-la. Enfim, já que chegamos perto de uma avenida e o carro de Marco e Eliza não está por perto, creio que você possa pegar seus trapos e retirar-se daqui, indo a pé para casa, colocando-se á altura do que você está... da rua. É só.


Jane saiu do carro. A limousine avançou e foi-se.


No dia seguinte, na faculdade, Marco não falou com Jane.


E pelas semanas seguintes eles não mais conversaram.


Dois meses depois, Jane estava entrando numa depressão tão profunda quanto um poço.


_ Jane! Você não pode ficar assim! - disse Gabriela, uma das amigas de Jane - Você precisa sair um pouco! Já sei vamos ao shopping!


Apesar de Jane resistir, acabou indo ao final da tarde.


No entanto, Jane passou mal ao olhar para uma loja de noivas. Aqueles vestidos brancos tão magníficos, tão puros. Ela abriu um sorriso, mas seus olhos se encheram de lágrimas.


_ Jane! Pare de chorar!


_ O que? - Jane olhou fixamente para o interior da loja - Não!!!


Quando Gabriela olhou, Marco e a formidável Eliza estavam lá dentro. Eliza com um estonteante vestido champanhe enxarcado de pérolas; movimentava sua cintura finíssima; enquanto Marco envolvia seus braços nela e a beijava.


A esse ponto, Jane já havia derramado lágrimas demais a ponto de chamar a atenção das vendedoras da loja.


_ O que aquela menina está fazendo?


Marco olhou para a vitrine e viu Jane do lado de fora afogando-se em uma dor incalculável.


_ Jane?


_ Veja só! A pobretona! - gritou Eliza, com ar de deboche e escárnio.


Jane afastou-se; olhou para o chão e para Marco; depois olhou para trás.


_ Jane! - gritou Marco com os olhos marejados. Gotas salgadas caíam do cálice.


Ela olhou para trás novamente e viu a queda das sacadas do shopping, como estava no 4 andar; tinha muitos metros de queda; na qual evidenciou se apossar.


Jane saiu correndo, e muito tarde despertou o medo e o instinto das pessoas.


Uma mulher jogou 4 sacolas Gucci e sua bolsa ao longe, tentando correr em seus saltos agulha para amparar a menina que corria em direção do vazio.


Marco saiu da loja desesperado gritando pelo nome dela. Suas bochechas não eram tão vermelhas quanto seus olhos.


_ Jaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaane!


Ela saltou.


A mulher dos saltos agulha caiu.


Uma multidão se concentrou envolta da grande sacada.


Uma multidão gritou ao ver o corpo.


Jane, mais uma vez se destruiu.


MAS ESSAS SÃO LÁGRIMAS QUE NUNCA CHOREI


Jane se recuperou do desprezo de Marco, afinal, nem tinham começado nada.


Resolveu se dedicar aos estudos, pois anos atrás já havia errado com outro homem; não poderia errar de novo.


Mas... errar é humano.


(Continua)








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