
Vamos concertar os erros.
Existem manchas no meu passado que muitas vezes não me permitem seguir em frente.
Eu só queria poder suspirar e acreditar que se eu não tivesse chorado tanto em realidade, talvez eu tivesse chorado da mesma forma, por não ter um futuro feliz.
Vou voltar. Pela última vez.
Jane era doce e feliz, uma bela adolescente de 13 anos que tinha poucas pretensões, era aplicada, estudiosa, mas possuía sentimentos frágeis. Facilmente era manipulada pelos que estavam ao seu redor. Deixava-se valer da piedade e da pena para com os outros. Então, tentava ajudar.
Foi tão caridosa com aqueles ao seu redor, que na maioria das vezes percebeu que precisava ajudar a si mesma.
Enfim, num dia frio, pouco antes de sair de casa para ver sua avó no hospital, ela o viu. Saindo de casa, aquele belo rapaz de cabelos castanhos, olhos morados, pele fina, branca e maxilares largos. Praticamente definhou ao apreciar sua beleza. Naquele momento nem mesmo lembrou-se de sua bondosa avó; e das canções que ela trazia, do abraço que ela tinha e dos beijos que ela lhe proporcionou.
E o mais estranho era que o belo rapaz era um vizinho, alguém que ela já tinha visto diversas vezes, mas que nunca conseguiu se quer trocar uma palavra.
Seu nome era Tom; e se já não fora suficiente, era muito parecido com Tom Cruise. Ao que se vê, a jovem de 13 anos havia se apaixonado à milésima vista, mas não por um garoto e sim por um homem; ele já carregava 26 anos.
Naquele dia, o abraço de sua avó, apesar de terno e quente, não fora totalmente satisfatório para ela. Queria mais que tudo isso.
Foi embora para casa, e ficou em sua janela à espreita do rapaz que tanto gostara instantaneamente. Mas ele não chegou naquele dia; tinha conhecimento de sua fama de mulherengo. E constantemente o via chegar com uma asquerosa em saltos, uma diferente a cada dia. Era um pervertido, mas ela via algo de bom nele; algo que nem ele mesmo sabia ser.
No dia seguinte, quando estava indo para o colégio o viu sair para o trabalho, não tinha ouvido quando chegou de noite, mas desajeitadamente o cumprimentou com um aceno, que lhe foi retribuído.
Mas, não como pretendia, a mente de Jane incidia que ele estava sendo simpático, mas ele apenas comentou.
_ Pirralha.
Jane nunca soube do insulto daquele dia; mas a cada momento que conseguia, lhe cumprimentava. Certa vez se atreveu a dizer um "oi", e conseguiu uma boa resposta.
_ Como você está?
_ Tudo bem, obrigada.
Mas as conversas não seguiram mais que isso. E por dois anos as coisas não mudaram.
Quando ela completou 15 anos, o seu sentimento por Tom não tinha desaparecido, apenas aumentado, e ela resolveu começar a agir. Foi até sua casa e o convidou para sua festa de aniversário. Que não seria repleta de crianças.
Jane não era muito desenvolvida, mas suas amigas eram. Todas com um grande rol de relacionamentos, uma até já havia feito sexo. E as demais, no mínimo, não viam a hora. Jane era diferente, queria amor. Queria banhos intermináveis em meio a rosas. Deitar-se junto para poder saborear beijos infinitos e distintos, cada qual com sua supremacia e doce sabor.
Ela fantaseou muito com Tom. Mas teve sua grande decepção quando ele não compareceu.
Os 15 anos de Jane foram tristes, e ela apenas chorou até o dia seguinte.
Passaram-se duas semanas e ela não viu Tom, apenas sonhou em um dia ele bater à sua porta, ou subir a sua janela e pedir para que fugisse com ele.
Isso também não ocorreu.
Após esse tempo, algo estranho aconteceu.
Ela estava voltando da escola a pé, e o carro de Tom parou ao seu lado.
_ Olá Jane!
_ Olá! - disse com um sorriso gigantesco.
_ Quer uma carona?
_ Aceito. - e subiu no carro.
_ Como foi no colégio?
_ Muito bem, estou em provas, já recebi algumas.
_ E você é uma boa aluna?
_ Sou. - e gargalhou - Tirei 10 em tudo.
Ele sorriu e disse:
_ Bem. Chegamos.
_ Obrigada pela carona. Até mais.
_ Tchau Jane.
E apenas sorriram um para o outro, sem ao menos haver um beijo sequer.
Foi simples e rápido, mas significou praticamente tudo para Jane.
_ Vou conversar com ele! - gritou para si mesma.
Ao entrar em casa, fechou a porta e começou a gargalhar. Estava tão animada com as melhoras na relação secreta que tinha com ele dentro de seu coração, que não hesitou em subir correndo para seu quarto e ligar o rádio no último volume. Exatamente, queria mais é que ele ouvisse a música.
Qual? Àquele tempo uma nova banda começava a fazer grande sucesso, se chamava The Calling, e o hit, Wherever you will go. Seus pulmões soltavam o máximo de ar para explodirem suas cordas naquela canção. E como por um ato de magia, ela sentia o corpo de Tom em seu quarto; e abraçar-lhe por trás, para dar-lhe um beijo no rosto.
Como se não bastasse de romantismo, colocou Goo Goo Dolls - Black Ballon; mais um vigor profundo de paixão e felicidade tomou conta de suas veias e fez sua voz levitar por entre seus lábios.
Depois de exausta com tamanha alegria, jogou-se na cama sorrindo muito, e imaginando o que faria para se declarar para ele. E o mais importante, pensando o que ele faria quando soubesse.
_ Vai me pegar em seus braços fortes e me beijar até eu não conseguir mais respirar. Vou ficar tonta só de pensar nesse momento. Hahahaha - estava feliz demais.
No dia seguinte, Jane estava pronta, havia bolado cada palavra que diria a ele. Foi para a escola e estava ansiosa para encontrá-lo assim que chegasse.
Por volta do 12:30 daquela quarta feira, Jane descia a rua de sua casa, quando viu o carro de Tom estacionado no portão dele. Foi até lá e tocou a campainha.
_ Sim?
_ Oi Tom, sou eu Jane. Podemos conversar? - ela disse gaguejando um pouco.
_ Claro.
Tom abriu o portão e Jane entrou. Não havia como ser descoberta já que naquele horário ninguém se encontrava em sua casa.
_ E então o que você quer?
_ Vou direto ao assunto. Quero te falar que... eu te amo. - e se aproximou como que para beijá-lo.
Ele ficou perplexo por alguns segundos e depois riu em deboxe.
_ O que?
Ela se desmoronou.
_ Eu.. eu..
_ Você é apenas uma criança Jane. Eu respeito seus sentimentos, mas...
_ Mas eu te amo!! - e começou a chorar.
_ Não ama! Saia daqui, por favor. Vão acabar me acusando de pedofilia por causa disso.
_ Não Tom! - e bateu em seu peito.
_ Eu não quero falar com você. Quero que você saia. - disse ríspido e frio olhando brutalmente para o rosto desmanchado de Jane.
Ela foi para a rua, e ele simplesmente disse:
_ Adeus. - e bateu o portão.
Jane ficou parada por alguns instantes na calçada, até que viu o vigia da rua descer em sua moto, e tentou disfarçar; simplesmente acenou ao homem, baixou a cabeça e entrou em sua casa.
Quando a porta fechou seu mundo começou a cair.
Ela embrulhou o rosto em seus cobertores e se jogou na cama para tentar fazer aquela dor parar. Seu coração jorrava sangue para seu rosto que ficava cada vez mais quente e vermelho. O som dos soluços era forte e doloroso, qualquer um poderia sentir de longe a amargura que ela estava vivendo.
Sem perceber Jane dormiu.
Ao acordar já era noite; e ela estava jogada no chão de seu quarto.
Jane levantou-se, agora sem lágrimas. E abriu a porta de seu quarto. Seus pais ainda não tinham chegado, e ela foi ao banheiro. Lá escovou os dentes, jogou uma ducha fria sobre a pele suada e inchada de seu rosto; colocou sua camisola rosa e debruçou um pouco sobre a pia para olhar seu rosto.
_ Será que não sou bonita?
_ Será que nunca alguém vai me querer?
_ Por que ele me tratou assim? - e deu um suspiro, como se fosse voltar a chorar.
_ Tenho que ser forte.
No entanto, ao olhar para o lado viu a caixa de remédios de seu pai, que era hipertenso, e possuia diversos problemas cardiovasculares. Abriu a caixa e se deparou com um remédio: Cardilol; que já ouvira dizer pelo médico que era um tanto forte. Seu pai tomava um por dia.
Sem pensar, Jane pegou uma cartela e foi destacando um, cinco, quinze comprimidos.
_ Eu queria ser forte.
Colocou todos os comprimidos na boca, e os engoliu com muita água.
_ Mas não sou.
Olhou para seu rosto no espelho com muito desprezo, como se olhasse para Tom. Como se estivesse com nojo de si mesma.
Delicadamente voltou para sua cama e rezou.
MAS ESSAS FORAM LÁGRIMAS DERRAMADAS.
Quando Jane tocou a campainha de Tom ele perguntou.
_Sim?
_ Olá Tom, sou eu Jane.
_ Oi Jane, pode entrar.
Jane entrou e eles se beijaram no rosto.
_ Tenho algo que preciso lhe contar Tom.
_É, eu também.
_ O que?
_ Preciso lhe falar Jane, que esses dias ando pesando em você.
_ Sério?
_ Sim.
_ Eu também.
_ Estava com medo de falar algo para você... mas é que algo está crescendo em mim, que eu não consigo muito bem compreender. Quer dizer você é tão nova... - ela tocou seus lábios e pediu para que se cala-se.
_ Shhh. - Jane se aproximou e beijou Tom.
O calor do corpo dos dois foi tamanho que seus corpos colaram. Jane pode sentir a excitação dele, e não manteve pudores em fazer beijos mais quentes e ousados. A respiração dos dois se tornou uma só. E ali mesmo na sala, Tom jogou aquela garota de 15 anos no sofá; retirou sua camisa; e ali passaram uma tarde inteira juntos.
Os dois não fizeram o amor que Jane um dia sonhou. Mas foi a realização de um sonho erótico. Tom em seus sonhos era um homem bondoso, mas também poderia ser um homem ardente.
Depois disso, foram para o banho. A água quente caindo sobre suas cabeças, e o corpo de Jane suspenso pelos braços fortes de Tom, a fizeram sentir um amor jamais esperimentado. Algo que a elevou até os prumos do teto; como se quisesse tocar as nuvens e os anjos.
Pode-se dizer que namoraram naquele dia. E que Jane foi muito feliz.
Mas essa felicidade não era pra ter acontecido. Jane começou a viver em função dele, não se dedicava mais aos estudos, e começou a ir muito mal nas provas. Seus pais tentando saber o que estava acontecendo perguntaram às amigas o que de novo atormentava a filha.
Infelizmente tal fato foi letal; e o pai de Jane descobriu q sua filha namorava um homem muito mais velho.
Como um pai cauteloso demais, prendeu sua filha em casa por uma semana, a mandando para um internato dias seguintes.
Jane nunca mais viu Tom, e nem teve como se despedir.
Mas da última visão se lembra. O viu chegar em casa, com uma loira espetacularmente linda.
Ela se sentiu a pessoa mais infeliz do mundo.
No internato a que fora mandada, no norte da Espanha, as regras eram firmes e duras. Mas Jane gostava de ficar olhando para a costa da Baía de Biscaia. Naquele cenário, via-se deslumbrada com o mar, e que tudo poderia ser diferente, se jamais tivesse se relacionado com Tom.
Jane ficou no internato por cerca de 3 anos. A cada dia chorou por aquele homem, por amor. E chorou por seu pai, por ódio.
Mas, pela vontade de seu pai, que nunca fora com a cara do vizinho, ela teria feito sua vida pela Espanha. Mas, ao término do inverno, quando as flores começaram a desabrochar; Jane entregou-se à costa do mar, se atirando de um precipício, e fazendo das águas seu túmulo de dor.
MAS ESSAS SÃO AS LÁGRIMAS QUE ELA NUNCA CHOROU
Quando Jane acordou no dia seguinte, tinha tido uma reação forte dos quinze comprimidos do Cardilol, vomitou o dia inteiro, teve uma febre alta, mas seus pais apenas desconfiaram de uma pequena virose. Deus não queria que ela partisse agora.
Por que, seu caminho não era a morte. A morte estava entrelaçada no homem que a rejeitou. E ela deveria seguir em frente para continuar a viver.
Continua...
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