sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Ira de Morgan - Parte IV


Quando as lágrimas de sangue caíram ao chão, Morgan viu-se jorrado em tristeza e melancolia; não sabia que rumo sua vida havia tomado; e muito menos de onde o poder maldito em sua casa vinha.
Certo dia veio correndo da escola sendo perseguido pelas demais crianças que queriam apedrejá-lo e recuou por cantos escuros das ruas mórbidas da cidade para tentar se esconder.
Chegando à casa já mal assombrada, com paredes sombrias apesar de amarelas, subiu as escadas correndo, não querendo sentir nem o rastro de uma pessoa sequer, nem de sua avó que já vinha ficando abalada com tantos eventos danosos.
Não só a cena da igreja, das paredes jorrarem sangue em meio ao grito das centenas de beatos; da população conclamada pura, que via derreter em cada fio vermelho a face de um mal que era vingativo dos céus, ou fonte de um poder santo. Muitas outras cenas, como a jovem empregada atacada pelo garoto, que desapareceu da face do mundo; sendo encontrada duas semans depois esquartejada dentro do banheiro do seu colégio.
Morgan ajoelhou-se em sua escrivaninha repleta de santos e crucifixos; chorava desesperadamente. Confessou:
_ Por que? Por qual motivo isso está ocorrendo?! Não sei se de mim, ou de Alicia, ou mesmo de minha mãe que desapareceu, não consigo achar a fonte deste poder, por favor meu Deus, me ajude a encontrar a solução desse pesadelo, desse carma sem fim. Não aguento mais sofrer! As colheres da sala de jantar se recontorcem, já me falaram de um polltergeist; mas o reverendo Johnson não acredita em tal boato, disse que eu estou possuído. E , Alicia? Aquela bruxa! Ela deve me controlar, bruxa!
Morgan irritou-se e atirou a imagem de Jesus Cristo na parede que se fez em milhares de pedaços.
Nisso, seu quarto escureceu, as luzes ficaram fracas, e ele pode ver a vulto branco que passou ao lado esquerdo.
_ O que é isso? - estava suando frio.
_ Hahahahaha! - a risada medonha se espalhou pela casa, e com tamanho medo, abriu a porta de seu quarto, para poder ver quem era o portador de seu susto.
Morgan foi descendo degrau a degrau; o estranho era que todas as janelas estavam fechadas o que trouxe um ar noturno em plena tarde de verão.
_ Quem está aí?
Nada se ouviu; e ele foi descendo.
Nisso uma cadeira da sala de jantar caiu ao chão, e ele pode ver alguém correr até a cozinha. O medo foi tamanho que se colou à parede da escadaria, como se pudesse voltar pelas paredes ao seu quarto, e de lá nunca mais sair.
Mas resolveu ir até o fim. Ao chegar na sala de jantar viu a cadeira caída, e olhou para a cozinha. De lá se ouvia o barulho de latas de alumínio caírem ao chão, e certo rosnar de bicho, como se fosse um lobo faminto.
Se aproximou até abrir a porta de sopetão.
O choque foi...
Tremendo!

Sua mãe estava amarrada a uma camisa de força, e o mesmo rosto cortado olhou fixamente, desvendando os olhos vermelhos malditos. Morgan gritou sem parar, e a mulher que estava sobre a mesa saltou para o teto, abrindo a boca e jorrando sangue que caiu ao chão de piso frio da cozinha.
_ Aaaah! - o garoto gritou e voltou a subir as escadas; a mulher se libertou da camisa de força, e avançou pelas paredes como se fosse uma aranha. O filho, que estava subindo as escadas, foi surpreendido pelos olhos vermelhos que saltaram à sua frente.
Morgan perdeu o equilíbrio e rolou as escadas até o chão.
A cena foi de terror.
A demônio asqueroso saltou do topo da escada com a boca aberta, suja e repleta de sangue para arrancar a cabeça de Morgan.
Os olhos do garoto se fizeram azuis e ele chutou a possuída contra a parede, que foi jogada contra a porta, e sugada pela luz solar.
Morgan suspirou e chorou.
_ O que foi isso.
_ Morgan? - Alicia o cutucou por trás.
Ao virar-se deu de cara com a irmã segurando a cabeça de sua avó; com uma faca na outra mão e sorrindo delicadamente; enquanto erguia a cabeça que gotejava sangue em seu vestidinho azul turqueza.
Morgan acordou de seu pesadelo.

_ Um sonho! - e caiu à cama aliviado, porém trêmulo e muito suado.
Não sabia que seria um dia difícil.

Ao chegar à sala, a diretora comunicou aos alunos que não teriam a primeira aula, pois a professora de História estava doente, e não poderia comparecer. Eis que uma monitora ficou à sala, para acompanhar os alunos.


_ Ei, Derick!

_ Fala.

_ Olha só.

O garoto fez uma bola de papel cheia de cola e a tacou na cabeça de Morgan.

A sala inteira foi a risos.

_ Tony! Por que fez isso? - disse a incompetente e imbecil monitora - Você não deveria se comportar assim.

E enquanto brigava com Tony, a bola de cola voltou e acertou a cara do garoto.

Todos que estavam em arruaça se calaram. Nunca viram Morgan reagir, mas desta vez, fora diferente. Morgan havia tacado a bola de cola num dos garotos mais delinqüentes do colégio.

A monitora, completamente desentendida em pedagogia, na verdade era uma aspirante a modelo que estava ali para ganhar uns trocados, foi chamar a diretora, pois muito burra, não saberia resolver o conflito.

As crianças ficaram sozinhas.

_ Seu imbecil! - Tony saltou em cima de Morgan e começou a espancar o garoto inúmeras vezes; no rosto, nos braços, no peito.

Eis que Morgan começou a tocir sangue, e as outras crianças, ficaram paradas.

Tony levantou-se e Morgan estava com o rosto completamente roxo.

_ Isso é pra você aprender, seu louco!

_ Morgan é uma bicha! - disse o outro.

_ Morgan seu idiota.

_ Morgan burro!

_ Morgan, vai correr pra sua irmã, bruxa!

_ Morgan, sua mãe foi pro manicômio!

MANICÔM_I_O!

Naquel instante Morgan lembrou-se de sua mãe em seu sonho; seu corpo levantou-se diabolicamente; e seus olhos fecharam-se. Todos quietos observaram os socos de Tony sumirem, e o rosto de Morgan se restaurar; pouco a pouco sua pele ficou branca e fina novamente.

As janelas se fecharam todas, e a porta se trancou por fora.

Todos estavam ficando assustados, algumas meninas quiseram chorar. Eis que o ventilador começou a rodar e rodar sem parar e o chão começou a tremer.

Gritos saídos de toda a parte, e somente um sorriso se formava no rosto de Morgan.

Eis que abriu os olhos, tão negros e profundos, que acoplaram-se a uma áurea azul que o imantou.

Daquele instante em seguinte não contarei ou escreverei gritos, pois o que se passou; as únicas falas resumem-se a gritos de pavor e terror, em meio a sangue jovem jorrados por paredes, teto e claro, rios de sangue ao chão.


As carteiras enrolaram-se nos pescoços dos respectivos alunos; fazendo com que suas astes entrassem nos pulsos das crianças; depois o apoio das costas era trazido para frente, quebrando todos os pescoços ao mesmo tempo, todos para trás.

A cena muda e sem calor se expandiu pelo resto do colégio; todas as salas receberam a benção de Morgan.

E quando ele saiu do colégio, em plena luz do dia; Alicia batia palmas em meio ao pátio.

Ele a olhou fixamente e com ódio.

_ Onde está o santinho da mamãe?

_ Você não é Alicia!

_ E você não é Morgan! - Alicia ficou com os olhos vermelhos, e o irmão caiu ao chão, com a face se recontorcendo inúmeras vezes, como se uma flama branca cubrisse seu rosto.

Não, ele não estava possuído, havia criado uma entidade dentro de si.

Caiu ao chão inconsciente; mas ouviu o barulho das cirenes da polícia, que vieram recolher os quatrocentos corpos, vítimas da Ira de Morgan.


Nada sobrou.


Mas ele acordou em um quarto branco; com as paredes forradas de tecido macio e espumante.


manicômio; Morgan louco!



Continua...

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