segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Ira de Morgan - Parte III




No dia seguinte, Morgan tinha acordado muito zonzo. Estava jogado no chão do quarto, mas espantosamente os móveis estavam intactos, bem como o espelho que havia estourado em seu rosto.


_ Será que só foi um pesadelo? - se perguntou ainda tenso demais.


Não tinha acreditado que tudo aquilo havia sido uma viagem de sua imaginação; que estivesse sonhando, mas ao mesmo tempo, não se recordava de absolutamente nada do que tinha feito; desde quando havia saído da Igreja, até o exato momento em que estava se olhando no espelho, tentando encontrar algum corte, alguma cicatriz.


_ Muito estranho.


Morgan se vestiu para ir ao colégio, e desceu as grandes escadarias da casa. Enquanto pisava a cada degrau tentava olhar a porta do quarto de sua mãe, mas estava com muito medo. A cena guardada em seus pensamentos era forte demais.


Na mesa estava Alicia, sentada tomando um grande copo de chocolate quente; logo ela perguntou:


_ O que houve, Morgana?


Ele não respondeu; sentou-se à mesa e ficou parado.


_ Onde está a vovó?


_ Não sei, quando acordei não havia ninguém; acho que estamos sozinhos.


Nisso, a porta de entrada se fechou.


_ Crianças! Estou aqui.


_ Onde estava vovó? - perguntou Alicia.


_ Fui levar a mãe de vocês ao aeroporto. - disse norma com um tom muito sério.


_ O que ela foi fazer lá? - retrucou Morgan, imediatamente.


_ O pai de vocês - se absteve - ele está muito doente, e ela foi cuidar dele. E só isso! - e subiu pelas escadas.


Morgan e Alicia se olharam.


_ O que será que aconteceu? - perguntou Morgan.


_ Nós sabemos o que aconteceu.


_ Lá vem você com suas histórias de drogas!


_ Não Morgan! - ela o interrompeu.


O garoto gelou.


_ Você sabe qual problema a mamãe tem. - e baixou a cabeça afundando suas olheiras e deixando o olhar maligno.


_ Vão para a escola crianças! - gritou Norma do alto das escadarias.


Os dois foram.


Ao ver as crianças saírem, Norma escorregou pelas paredes e caiu ao chão para chorar. Eis que as janelas bateram com extrema força, e o susto que levou fora tão grande, que enxugou as lágrimas e foi arrumar a casa.




Passaram-se alguns dias, e casa nunca tinha sido tão quieta. Norma mal falava com os netos. Alicia, cada vez mais, ficava com suas amigas, fazendo feitiços de bruxa; e Morgan, bem, esse estava atormentado com o que tinha visto; e não acreditava ter sido verdade.


Certo dia em seu quarto, estava lendo a Bíblia, e começou a chorar.


_ Por que?! Por que minha mãe?! O que está havendo nesta casa?!


Ele suspirava, não conseguia encontrar ar para preencher seus pulmões.


_ Está possuída! Mas... e eu? - olhou para o chão e viu as mais de quinze colheres e garfos retorcidos jogados ao chão; olhando ao teto, estavam as marcas de suas unhas, quando fora jogado dentro de seu quarto por uma entidade que havia tomado conta do corpo de sua mãe.


_ Mamãe! Onde você está?!




No colégio todos caçoavam de Morgan; o menino que queria ser padre e era dotado de uma inteligência incrível. Certo dia, o gordo ruivo sardento do fundo da sala colocou cola na carteira de Morgan. Eis que quando ele sentou, não percebeu nada.


Passou-se um tempo:


_ Intervalo, pessoal. - disse a Sra. Martins, professora de Matemática.


Todos começaram a levantar, mas Morgan, caiu com a cadeira em cima dele; e as calças coladas na placa de madeira. A pancada lhe feriu a boca que começou a sangrar. O menino gordo, Gordon Jiudson foi o primeiro a falar:


_ Morgan sentou na cola! Um tremendo idiota!


_ Morgan sentou na cola!


_ Morgan padre! Não fique colado, vai perder a missa!


_ Chega! - gritou a professora.


Depois ela o ajudou a se levantar; mas sua calça ficou rasgada, mostrando sua cueca. Ao voltar do intervalo humilhante, Morgan não tinha lugar, se não a última carteira do fundo.


Entretanto, como não enxergava muito do fundo, a lousa começou a dar-lhe sono. Morgan dormiu.




No sonho Alicia corria por um grande corredor branco:


_Morgan! Vou te pegar!


Em seguida, ele estava na escola, em meio a várias pessoas desconhecidas; no entanto, quem apareceu foi Gordon Jiudson.


_ Ei! Morgan padre! Morgan bicha!


_ Cala a boca Gordon! - e ele caia chorando - Deus por que?


Eis que Alicia vinha com uma faca e a atravessava na cabeça do menino ruivo.


_ Alicia! - gritou Morgan.


_ É para o seu bem! - dizia a menina com voz grossa.


Naquele momento ele lembrou-se de sua mãe levitando em sua direção, o jogando no quarto, e sua cara sendo estraçalhada pelos cacos de vidro do espelho.


_ Aaaaah! - Morgan gritou.


Estava na sala de aula novamente; e saiu da carteira gritando, e deitando-se sobre a parede tentando fugir, não conseguia para de gritar.


_ Morgan! - gritava a professora, enquanto tentava reanimá-lo.


Os gritos do garoto se tornavam agudos e ensurdecedores. Os demais alunos estavam ficando transtornados, algumas meninas começaram a chorar; e quando ele conseguiu abrir os olhos.


_ Gordon! - ele gritou.


_ Sra. Martins! - gritou a secretária ao entrar na sala.


A professora correu em direção à secretária que se surpreendeu ao olhar para o garoto transtornado; eis que Julia, uma menina muito bondosa, abraçou o garoto para que ele parasse de gritar.


Mas era impossível.


A professora correu pelos corredores, e ao entrar no banheiro congestionado de policiais, viu Gordon Jiudson com a garganta cortada e pendurado pelas vértebras do pescoço, no suporte de casacos, que passava por dentro de seu pescoço. O chão enxarcado em sangue.


_ Aaaaaaaaaah - o grito de Morgan se tornou tão agudo que os vidros da sala de aula impeliram trazendo uma chuva de vidro, que provocou centenas de cortes em mais de 60 alunos.


Morgan calou-se.




O garoto foi levado pela avó que foi buscá-lo no colégio. ela tentou lhe tirar alguma informação, mas parecia impossível.




Na missa do domingo, Morgan levantou bem cedo, era um dos coroinhas do padre George Barcelos, e tal função lhe trazia satisfação e tranquilidade, afinal, estava na casa de Deus.


A Igreja de São Miguel vinha passando por reformas ultimamente e alguns locais estavam cobertos por panos, para que o cheiro forte de tinta não incomodasse os fiéis.


Eis que a missa começou normalmente.


Dentre os presentes estavam Norma e Alicia, que fora de má vontade.


Desde o incidente do colégio, Morgan estava mais afastado da irmã, não conseguia entender seu sonho, nem mesmo os fatos oriundos de sua mente.


Foi quando Alicia desapareceu. Morgan não a achava com o olhar.


De repente, um rosnado tomou a Igreja; como se fosse um cachorro com raiva. Os panos brancos de uma das paredes adquiriu manchas vermelhas e uma voz de homem começou a falar.


Tal cena já estava causando arrepios incalculáveis em todos; nas mais de cem pessoas dentro da Igreja.


_ Vim aqui para dar-lhes a notícia que o destinatário final chegou! Está na hora de pagarem por seus pecados! Desgraçados!


Os panos brancos caíram; e Alicia estava crucificada nas paredes, enxarcada em sangue.


A cena fez pessoas desmaiarem, tamanho o choque.


Daquilo veio o silêncio; e pode ouvir-se Alicia chorar.


Depois, Morgan caiu ao chão; seus olhos ficaram vermelhos e ele começou a chorar sangue.


Do silêncio dos beatos, pode-se ouvir a voz do demônio saindo dos pulmões da criança crucificada que urrou, enquanto as paredes escorriam sangue.


_ Aaaaaah! - e a voz de Alicia ecôou em todos os ouvidos, como um enxame de abelhas.


Morgan untou seu manto branco em vermelho de suas lágrimas.




Continua...




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