quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Taça - Parte 2


Quando Evan viu que seu pai estava morto perdeu os sentidos.

_ Pai! - o rapaz deixou-se cair ao corpo de Andrew e suspirou profundamente antes de deixar as lágrimas caírem por seu rosto.

Evan não estava conformado. A pequena poça de sangue migrava em volta do corpo, e o batom vermelho na testa do corpo indicava:

_ Lábios redondos, sem ondas, como laranjas. - Evan acariciou a testa de seu pai tentando encontrar o culpado pelo crime; depois fechou os olhos do pai.

A polícia chegou logo em seguida, o delegado colheu as provas locais, mas não conseguiu encontrar absolutamente nada. Ao que parecia ele tinha sido seguido, pois marcas fortes de pneu estavam próximas aos portões da casa, como se alguém tivesse arrancado dali.

Evan estava desolado, como se o tempo tivesse parado para ele. Não conseguia encontrar alguém que pudesse fazer aquilo com seu pai.

Eis que um dos policiais se aproximou.

_ Evan, certo?

_ Isso.

_ Vou ter que levá-lo para prestar depoimento na delegacia. Falar sua versão.

O tom do policial pareceu um pouco arrogante. Na camisa cinza estava escrito Tenente Minor, que depois Evan descobriu ser Rodrigo Minor, antigo funcionário da carvoraria que era chefe de segurança.

_ Claro. - consentiu com a condução à delegacia.

O depoimento foi frio do delegado, e o tenente sempre ficou ao gabinete acompanhando a versão de Evan. Era como um amigo da família. Intimidade que estava se dando, Evan nunca fora com a cara dele; era um homem ríspido e arrogante, aliás, continuava sendo.

Após a massacrante investida do delegado, que era um tanto jovem, cerca de 28 ou 29 anos, Evan foi dispensado e resolveu ir para um hotel, não aguentaria passar aquela noite à sombra do fantasma de seu pai.

Nisso, Minor chamou seu nome.

_ Evan!

_ Sim?

_ Lembra-se de mim, não?

_ Claro, o chefe de segurança da carvoraria.

_ Exato. Bem, sinto muito por seu pai; não tive a oportunidade de dizer isso.

_ Obrigado. - e virou-se para ir embora.

_ Hum.. - chamou-o novamente - Se precisar de algo, não sei, pode falar comigo. Vamos encontrar o assassino.

_ A. - e agradeceu com a cabeça.


No dia seguinte Kate acordou e foi animada para o trabalho, havia dormido muito bem por conta da noite anterior com Evan. No entanto, ele não foi à galeria no dia seguinte.

Preocupada, Kate tentou ligar o dia todo, mas não obteve sucesso.

Dois dias se passaram sem a notícia de Evan.


Numa quarta feira ele apareceu.

_ Evan! O que houve com você?! Por onde andou?

_ Sinto muito Kate. Meu pai foi assassinado.

_ Oh meu Deus!

_ Não colocaram no noticiário ainda, mas não sei por quanto tempo conseguirei abafar o caso.

O barulho da televisão incomodou o ouvido de Evan e a repórter dizia.

_ Faleceu a dois dias o grande empresário Andrew Bastor, dono da maior carvoraria do país...

_ Acho que não é mais segredo. - disse desapontado.

_ Mas o que aconteceu?

_ Ele foi ferido bala; e o assassino deixou um beijo sobre a testa dele. Uma marca de batom.

_ Uma mulher?

_ Tudo indica que sim. Lábios redondos.

Kate tocou os próprios lábios.

_ São muito diferentes dos seus; eram redondos, não tão ondulados.

Aquele dia foi de extrema nostalgia para ambos. A galeria ficava vazia durante a semana, e agitada às sextas e sábados com os diversos eventos promovidos.

_ Vai vir ao evento de sexta não é? Acho que importante você se distrair.

_ Vou tentar. Mas tenho que ir, os acionistas da empresa estão me enlouquecendo.

Evan foi-se.


Na quinta feira, Kate ficou sozinha na galeria; e foi ao entardecer para casa. Nisso um homem a abordou na entrada do prédio.

_ Com licença.

Kate virou-se e viu o punho encostar em seu rosto, com força tamanha que ela caiu para dentro novamente, já que não conseguiu trancar a porta.

Recobrando os sentidos tentou levantar e começou a correr por entre os fascinantes quadros e esculturas modernistas.

_ Socorro!

O homem vinha atrás com tranquilidade, enquanto ela gritava desesperadamente e corria sem rumo, já que os corredores da galeria poderiam enganar até o que os construiu, um labirinto praticamente.

_ Não tem para onde fugir!

Kate encostou-se em uma parede tentando ver onde poderia estar o homem que havia lhe atacado. Chorava muito e estava desesperada.

Em seguida, ouviu que a música ambiente havia sido ligada. Uma música em tango como na noite em que dançou com Evan, um tango malicioso e tenebroso e que lhe dava ainda mais pavor.

Assimilando que a sala de áudio estava longe correu tentando escapar para a rua.

Aos passos de Kate, os contrapassos de alguém a seguiam novamente, e pior corriam atrás dela.

A música a enfeitiçou de tal forma que via um grande borrão em seus olhos.

De repente, bateu de frente com uma cópia de Picasso, que foi desprendida do alto e jogada contra ela. Por trás uma mão cobriu-lhe o rosto e ela caiu com o homem.

Ao ponto do tango chegar ao fim, enquanto Kate se debatia uma mulher veio caminhando e estourou uma garrafa de espumante, colocando o líquido caótico no cristal sorriu.

Kate pode ver por um segundo o rosto da mulher, e em seguida gritou abafadamente com as mãos do homem corpulento sobre sua boca.

A mulher tomou a taça e bebeu daquele líquido; repousando a prova sobre uma mesa, e deixando seus lábios marcados novamente.


Lábios redondos, sem ondas como laranjas.


Continua...






Um comentário:

Unknown disse...

aa que histórias profundas e tensas....isso é mui belo.....