terça-feira, 27 de maio de 2008

A Ira de Morgan - Parte II



_ São seus filhos... Seus filhos, Catherine! - disse a pobre mãe chorando muito.


Catherina paralisou-se e relembrou imagens antigas; do tempo em que descia sua rua, e fora estuprada de maneira cruel por um demônio das sombras.


_ Mas como isso pôde acontecer? - perguntou Catherine indignada.


_ Você foi estuprada, filha. O homem que fez isso com você, a engravidou!


Catherine já não tinha os olhos amenos e pacatos de quando havia chegado; olhou novamente para as crianças e virou-se de costas apenas dizendo:


_ Não foi um homem.


A mãe ficou à sala ao lado dos netos, enquanto sua filha subia as escadas em direção a seu antigo quarto, do qual não saiu o resto do dia.




Decorre que certo tempo se passou, e Kate não havia se acostumado com os dois novos moradores da casa. Não lhes tinha acompanhado a existência, e, por isso, não criou afeto algum dos seres que saíram de seu ventre; ainda mais seres advindos de um monstro.


Cinco anos se passaram e as crianças foram crescendo. Kate retomou seu emprego de enfermeira no hospital e conseguia levar uma vida saudável, fato que não era constatado ao chegar em casa.


_ Boa noite, mamãe! - dizia Alicia com um sorriso de lado a lado do rosto.


_ Boa noite. - e Kate subia a seu quarto para dormir.


_ Mamãe não gosta da gente! - disse Morgan emburrado do outro lado da sala-de-estar.


_ Gosta sim!! Ela não gosta do nosso pai.


Morgan era um jovenziho dos cabelos pretos e os olhos muito negros também, a pele branca e as buxexas sadias o transformavam num lindo garoto; e muito sabido. Alicia, da mesma forma, tinha cabelos negros, mas bem compridos; seus olhos, no entanto, eram azuis, e não um azul comum, eram de uma intensidade forte como o céu do final da tarde. Além de belos, os gêmeos eram muito inteligentes, e Alicia despertou a curiosidade de Norma, sua avó.


_ Do que está falando Morgan?


_ De meu pai! Mamãe não gosta dele. Porque ele é mau.


_ Quem te disse isso?


_ Eu apenas sei! - disse com cara de anjo.


_ Besteira! Mamãe ama o papai, ele está no Egito estudando as múmias!


_ Exatamente, Alicia. Morgan, seu pai está no Egito, já te contei isso; e é um bom homem. - Norma não tinha a menor confiança no que estava falando.


Eis que Morgan levantou do canto da sala, foi até a avó e segurou-lhe o rosto com as duas mãos, dizendo:


_ Não tente nos enganar. - e subiu para o quarto.


Alicia ficou quieta e sentou-se no sofá para assistir televisão.


Norma sentiu um arrepio gelado subindo pelas costas, como se sentisse algo dentro do neto. Morgan sempre se mostrou um menino excepcional.




Morgan ia para o colégio todos os dias; estava sempre atento aos deveres; nunca recebeu uma reclamação sequer dos professores. Adorava estudar e ler qualquer tipo de história; e, aos poucos, já que era sócio desde os oito anos da biblioteca perto de sua casa, passou a níveis mais elevados de saber. Conseguia ler dramas, romances, livros de física quântica, filosofia, livros religiosos, terror, biografias, e assim por diante. Além disso, não deixava de ir à igreja de São Miguel Arcanjo todos os dias; sempre que saia da escola passava por lá; e aos domingos comparecia alucinantemente à missa. Eis que Morgan foi crescendo.


Alicia, ao contrário, começou a ir muito bem no colégio, mas aos poucos foi denegrindo pela inveja que tinha do irmão; não conseguia nunca ser melhor ou mais inteligente que Morgan, e isso a deixava em fúria. Aos poucos foi se excluindo dos laços da família, e adentrou num grupo mais "intelectual" da escola; ela e mais quatro meninas viriam a completar este pentagrama. E Alicia também foi crescendo.




Com quinze anos Morgan já sabia o que queria de sua vida; seu sonho era se tornar um arcebispo do Papa; ajudando e fazendo seu trabalho perante Deus a todo instante. Alicia havia se tornado uma roqueira, amante de sons pesados e com uma mente um tanto dolorida.


_ Bom dia, mamãe! - disse Morgan.


_ Adeus. - disse Catherine ao sair de casa.


_ Ela não dá a mínima pra gente. Já cansei de te dizer isso, Morgana!


_ Você é cruel, Alicia! Ela é nossa mãe, e sabemos porque ela não gosta muito de nós.


_ Porque é uma viciada!


_ Por que está dizendo isso?


_ Eu vi as milhares de seringas no quarto dela. E muitos tubos. Vovó tentou esconder de mim, mas eu descobri; são drogas!


_ Já tomaram o café? - perguntou Norma.


_ Já vovó! - responderam juntos.


_ Ótimo, estão atrasados. Vão... vão.


_ Tchau vovó. - disseram.


_ Adeus crianças. - Norma guardava muito carinho pelos netos, ainda mais quando ficou sozinha, após a morte de seu marido (que não gostava de falar sobre). E ter Kate por perto, era o mesmo que não ter ninguém


A casa fazia mal a Kate; e naquele dia, coisas iriam mudar.


Catherine subiu a rua do hospital para trabalhar naquele dia comum; eis que um bando de pássaros a atravessou de frente; tendo a pequena vertigem de visualizar um homem de capa negra sorrindo para ela; após os pássaros saírem, não havia mais ninguém por lá.


Ela suspirou e seguiu em frente, até que chegou ao hospital; foi subindo de elevador até seu andar; eis que as luzes começaram a piscar.


_ Por favor! De novo não! Não! - gritava.


As luzes se apagaram e quando a porta do elevador se abriu, Catherine estava jogada ao chão. Intacta.


Pouco tempo depois foi levada para casa.




Morgan se afastava de Alicia sempre que estavam próximos do colégio; ela não gostava de vê-lo perto, então ordenava que ele fizesse isso. Naquele dia, as aulas foram iguais. A professor de Biologia fez uma pergunta.


_ Qual a enzima que temos na boca?


_ Ptialina! - respondia Morgan sozinho na sala.


_ No estômago?


_ Pepsina e Ácido clorídrico!


E assim por diante...


Ao final, a sala inteira estava com raiva daquele que respondia a todas as questões; e a professora Margareth lhe entregou sua prova do trimestre; um 10 como sempre.


_ Parabéns, Morgan! O único 10.


_ O único dez! O único dez! Morgan imbecil! - zombou o menino gordo do canto esquerdo.


_ Santo Morgan! O papa! Hahaha - zombou o sardento do fundo.


E a sala inteira assim o tratava, mas ele não se importava, pois suas notas eram as maiores e isso lhe satisfazia.


No intervalo, Alicia e suas amigas planejavam algo.


_ Temos que fazer a magia do sapo; assim poderemos namorar os meninos do último ano!


_ Mas Alicia, a magia do sapo é muito forte, o livro de São Cipriano pede que somente um bruxo o faça.


_ Não acredito no que ele tenha dito, Carla. Você quer ou não quer Richard - e suspirou - Tompson!


_ Ok! Faremos.


Alicia, seguindo outra vertente, estava se tornando uma wicca, o que não sabia, é que isso reverteria demais em seu organismo.




Ao fim das aulas, Morgan voltava sozinho; pois Alicia sempre ficava até mais tarde com as amigas na casa de uma ou de outra. Passou pela igreja, e rezou por alguns instantes.


_ Que minha mãe goste mais de mim, meu Deus.


Foi quando uma gota caiu do teto e o acertou bem no olho direito, o deixando com muita dor, por causa da ardência. Limpou e foi-se.




Novamente alguém descia a Rua Dielden. Era Morgan, um tanto sozinho e pálido. Ao chegar em casa suspirou o desânimo de não ter amigos. Mas sua atenção se voltou para outra coisa ao ouvir:


_ Aaaaaaaaaaaah - uma voz grossa de homem gritou grotescamente do alto das escadas.


Num ato desesperado ele começou a subir freneticamente. Os lustres balançavam sem parar; as escadas tremiam, e aquela besta não parava de gritar. Foi quando abriu o quarto de sua mãe e se deparou com a cena mais aterrorizante que já havia visto.


Norma havia amarrado Catherine à cama pelos braços e pernas; e sua mãe estava desfigurada, completamente roxa e cheia de cortes no rosto. O monstro derramou-se à cama e gritou:


_ Catherine!!!!


Norma aplicou-lhe uma injeção com as seringas que Alicia disse ter visto.


Nisso, Catherine levantou o rosto e olhou fixamente para Morgan; sorriu com os dentes podres e gosmentos.


_ Mooooooorgaaaaaaaaaaaaaaan!


Catherina se libertou das cordas, deu um soco em Norma que caiu ao chão inconsciente e saiu em disparada atrás de Morgan.


O garoto correu até o quarto; mas foi arremessado direto para dentro, sendo jogado contra a parede, a porta se fechou, e as madeiras do piso começaram a saltar. O garoto não parava de gritar; até que foi jogado inúmeras vezes contra a parede. Por fim, arcou uma ponte com o corpo, seus olhos ficaram grandes e brancos, e uma veia estourou para fora de sua testa implorando por ajuda. Caiu ao chão; levantou e foi jogado contra o espelho do quarto, de onde viu seu rosto desfigurado, repleto em sangue, e a mesma face de sua mãe. Um monstro risonho e demoníaco, que apenas disse.


_ Cheguei Morgan. - e o garoto gritou até não poder mais.


Morgan desmaiou.




Continua...




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